Por Atualpa Ribeiro
Sinto como se estivesse vivendo um “efeito Rorty” no cotidiano. Tudo aquilo que me aparece sob lentes rortyanas - ou seja, pretensamente universal, transcendental, fora da cultura e da política - provoca em mim um certo incômodo imediato. É como se qualquer discurso que se apresente como absoluto despertasse suspeita, e eu, quase instintivamente, passasse a me afastar. Tenho me encontrado torcendo o nariz para temas que antes eu encarava como fundamentais, justamente porque agora os vejo revestidos dessa aura de neutralidade que Rorty tanto questiona.
Em discussões acadêmicas, por exemplo, quando surgem conceitos como experiência e vivência em Benjamin, a primeira reação que me vem não é curiosidade, mas uma interrogação quase impaciente: " que assunto chato", "que verborragia", “qual o sentido disso?” Não porque os temas sejam irrelevantes, mas porque, diante da perspectiva pragmatista que me atravessou, eles parecem, à primeira vista, distantes demais da vida concreta, como se pairassem acima dos conflitos históricos, sociais e materiais que de fato nos afetam. Talvez eu não esteja rejeitando Benjamin, e sim essa tendência de transformar conceitos em abstrações desligadas de suas condições de produção. O efeito não é o abandono do pensamento, mas uma exigência: que ele não se esconda atrás de verdades intocáveis, que se responsabilize pelo mundo que pretende interpretar.
