Por Atualpa Ribeiro
Gravei estas notas durante o percurso de Teresina a Crateús. Estava sozinho, com sono, e encontrei nos áudios uma forma de manter a atenção na estrada e, ao mesmo tempo, registrar impressões da semana, leituras, inquietações e possíveis textos para o blog. Era pensamento em trânsito: no sentido literal, porque eu dirigia; e no sentido interno, porque algumas ideias ainda estavam se deslocando, sem repouso, sem forma final.
A primeira delas foi tentar entender um fenômeno que passei a chamar de feminismo Shopee1.
Uso essa expressão como imagem crítica. A Shopee, nessas reflexões, não me interessa como empresa, mas como figura de um grande shopping popular, um mercado veloz, cheio de ofertas, atalhos, imitações, achados, bugigangas e consumo por impulso. O que chamo de feminismo Shopee é a apropriação rápida de um vocabulário feminista por pessoas que, muitas vezes, nunca passaram pelas autoras, pelas lutas, pelas contradições e pelos problemas que deram densidade ao movimento.
Fala-se em feminismo por cortes de vídeo, frases prontas, postagens no X, cards coloridos, respostas entregues por chat, slogans de trinta segundos e indignações de ocasião. É um shopping de opiniões2. A pessoa entra, escolhe a frase mais conveniente, veste aquilo como sinal de modernidade e sai discursando como se tivesse elaborado alguma coisa.
Não estou dizendo que só pode falar de feminismo quem leu tudo. Isso seria pedante e injusto. O problema é outro: transformar um debate sério em adereço de pertencimento. Simone de Beauvoir, Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Nancy Fraser, Judith Butler, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro e tantas outras não podem ser reduzidas a senha3 de bolha, a palavra de ordem ou a enfeite de rede social.
O feminismo, quando levado a sério, exige leitura, escuta, conflito, história e proposição. O feminismo Shopee, ao contrário, vive de panfleto pelo panfleto. Tem frase, mas não tem projeto. Tem indignação, mas pouca ação. Tem sigla, mas nem sempre tem povo. Tem vocabulário, mas nem sempre tem chão.
Talvez por isso eu tenha pensado, ainda no áudio, em distinguir esse fenômeno de um feminismo mais prudente, mais enraizado, talvez até conservador em certo sentido do termo. Sei que “conservador” é uma palavra problemática. Hoje, quase toda palavra terminada em “ismo” cai rapidamente na máquina da suspeita: conservadorismo, comunismo, marxismo, esquerdismo, identitarismo. Tudo vira rótulo antes de virar pensamento.
Mesmo assim, quero preservar a provocação. Quando falo em um feminismo mais conservador, não estou falando de submissão da mulher, nem de recusa de direitos, nem de moralismo barato. Refiro-me a uma postura que se pergunta: qual discurso chega à mulher da periferia? Qual vocabulário permite diálogo numa comunidade de base, numa pastoral, numa escola pública, numa associação de bairro? Qual pauta altera a vida concreta de uma mulher pobre, negra, trabalhadora, mãe, cuidadora, endividada, cansada, invisível?
O debate se perde quando a palavra “igualdade” é dita da mesma maneira por pessoas que vivem mundos inteiramente distintos. Uma mulher de classe média alta, com empregada doméstica em casa, pode falar em igualdade de direitos. Mas, para a mulher que limpa sua casa, pega ônibus, sustenta filhos, enfrenta fila no posto de saúde e convive com violência no território, essa igualdade precisa ter corpo, salário, proteção, creche, comida, tempo e segurança.
Sem isso, a palavra empobrece.
É nesse ponto que o feminismo Shopee me incomoda. Ele reage com o fígado, não com pensamento. Confunde falar alto com ter razão. Confunde lacração com política. Confunde agressividade com coragem. Ao fazer isso, entrega para os adversários do feminismo exatamente a caricatura que eles desejam combater: a imagem de que feminismo é briga, barraco, ódio aos homens, destruição da família, confusão moral.
O problema não está no feminismo. Está na forma como certas pessoas o divulgam, consomem e deformam.
Quando estou em espaços de catequese, pastoral ou comunidade periférica, percebo isso com muita nitidez. Se eu uso palavras que circulam bem na universidade, mas não foram traduzidas para a experiência concreta daquela comunidade, crio distância em vez de conversa. Não porque as pessoas sejam incapazes de entender. Ao contrário. Muitas vezes entendem melhor do que eu. Mas é preciso construir ponte, não jogar senha.
Lembro de uma senhora negra, de uma associação comunitária, que ouviu falas acadêmicas sobre mulheres e depois perguntou, com entusiasmo, como poderia levar aquilo para sua associação. Ela se encantou com a palavra “empoderada”, mas não a usou como ornamento. Ela queria saber o que fazer com aquilo. Queria levar a discussão para outras mulheres. Ali havia materialidade. Havia desejo de ação. Havia comunidade.
Esse exemplo vale mais do que muita panfletagem de rede social.
A questão, então, não é abandonar as pautas das mulheres, da população negra, da população LGBTQIA+ ou dos povos indígenas. Isso seria uma regressão moral e política. A questão é perguntar se essas pautas estão sendo ligadas a um projeto de país ou se estão sendo consumidas como mercadoria simbólica. Elias Jabbour, por exemplo, tem insistido em distinguir “pautas identitárias” de “pautas civilizatórias”4, defendendo que emancipação feminina, igualdade racial, questão LGBTQIA+ e questão indígena precisam ser pensadas dentro de um projeto nacional, e não como fragmentos isolados de disputa cultural.
Essa distinção ajuda. O problema não é a pauta. O problema é quando a pauta perde mediação social, perde povo, perde chão, perde relação com trabalho, renda, território, saúde, infância, soberania, educação e segurança.
Foi a partir disso que as impressões que tive das leituras que realizei de Richard Rorty começaram a organizar as prateleiras. Em Achieving Our Country, Rorty critica uma parte da esquerda acadêmica que teria se afastado da política reformista, dos sindicatos, da justiça econômica e da construção de maioria social, preferindo muitas vezes uma postura de espectador crítico, mais voltada à denúncia cultural do que à organização pública. A Stanford Encyclopedia of Philosophy resume esse ponto dizendo que Rorty via a “esquerda cultural” como inclinada a privilegiar certas formas de desigualdade ligadas à identidade, enquanto deixava em segundo plano a desigualdade econômica.
Essa crítica de Rorty não precisa ser aceita sem resistência. Ele também pode ser acusado de simplificar debates culturais e de subestimar a força política de certas lutas de reconhecimento. Mas sua advertência continua útil: uma política que só denuncia, sem propor, termina falando para os próprios convertidos.
E uma política que só fala para os convertidos perde o mundo.
O feminismo Shopee sofre desse problema. Ele fala para a bolha, recebe aplauso da bolha, produz frases para a bolha e, depois, estranha quando a periferia, a igreja, o trabalhador comum ou a mulher da associação não se reconhecem naquele discurso. Falta a pergunta mais simples: quem está me ouvindo? Que repertório essa pessoa tem? Que dores ela traz? Que palavra pode abrir conversa em vez de fechar a porta?
Aqui lembro também de uma dimensão quase griceana5 da comunicação: não basta falar; é preciso cooperar para que haja entendimento. Eu erro quando suponho que o outro já possui as mesmas referências que eu. Mas o outro também precisa se abrir ao que eu digo. Sem esse duplo movimento, não há diálogo. Há apenas monólogos concorrentes.
Daí minha preocupação com certas prioridades da política cultural no Brasil. Não se trata de negar temas sensíveis e que foram anulados por décadas. Trata-se de ordenar urgências públicas. Antes de transformar todo debate em guerra moral sobre casos-limite, precisamos perguntar: há comida na mesa? Há atendimento oncológico? Há fila de transplante? Há proteção para crianças e adolescentes contra facções? Há escola funcionando? Há creche? Há segurança para meninas? Há condições para uma mulher sair de uma relação violenta?
Se a resposta for não, qualquer discurso emancipador precisa passar por essa teia, para utilizar um termo quineano6, de políticas públicas.
Rorty gostava de lembrar que, se cuidarmos da liberdade, a verdade poderá cuidar de si mesma. A frase pode soar simples demais, mas tem força política: sem liberdade concreta, sem proteção contra a crueldade, sem condições materiais mínimas, a disputa de vocabulários vira luxo de quem tem tempo para performar opinião.
O mesmo vale para o marxismo de rede social. Há gente que se diz marxista sem ler Marx, sem estudar trabalho, mais-valia, capital, luta de classes, Estado, mercadoria, exploração. Conhece os termos por verbetes prontos, cortes de vídeo, posts inflamados e notas de rodapé. O resultado é uma dialética sem antítese real. Quando todo mundo concorda, não há pensamento. Há confirmação coletiva. A síntese vira apenas a tese repetida com maquiagem.
Por isso, minha crítica não é contra o feminismo. É contra sua versão de vitrine. Contra o feminismo sem mediação, sem leitura, sem prática, sem povo, sem projeto. Contra o uso de palavras fortes para esconder a ausência de ação. Contra a substituição da política por performance.
A história mostra que discursos inflamados, à esquerda e à direita, costumam cobrar a conta de quem está longe da mesa onde as decisões são tomadas. Os líderes, os intelectuais de palco, os performistas, os influenciadores e os oportunistas raramente ficam na ponta da lança. Quem paga são os mais pobres, os mais expostos, os que acreditam nas palavras de ordem e depois ficam sozinhos diante das consequências.
Talvez seja por isso que eu tenha gravado esse áudio dirigindo. Entre uma cidade e outra, com sono, caminhões na estrada, bodes, vacas, vaqueiros intermediando as paradas, tombamentos de carretas e pensamentos correndo mais rápido do que as palavras, o que eu tentava dizer era simples: precisamos de menos ornamento e mais responsabilidade. Menos panfleto e mais escuta. Menos vitrine e mais chão.
Se o feminismo quiser falar com o Brasil real, precisa sair do shopping de opiniões. Precisa chegar à associação, à escola, à igreja, ao posto de saúde, à cozinha, à fila, ao ônibus, ao bairro, à mulher que não tem tempo de decorar siglas, mas sabe muito bem o que é injustiça.
Ali talvez comece uma conversa menos barulhenta e mais séria.
E talvez seja essa conversa que o feminismo Shopee ainda não conseguiu fazer.
Referências
OBS.: Embora não tenha realizado menções ipis verbis desses/dessas autores (as) vale como indicação de leitura.
JABBOUR, Elias. Uma esquerda que não percebe a centralidade da questão nacional não é digna do poder político. Entrevista concedida a Leandro Demori. O Cafezinho, 9 jul. 2025. Disponível em: https://www.ocafezinho.com/2025/07/09/jabbour-uma-esquerda-que-nao-percebe-a-centralidade-da-questao-nacional-nao-e-digna-do-poder-politico/. Acesso em: 9 out. 2026.
ARENDT, Hannah. A condição humana. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2020.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 22. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
FRASER, Nancy. Fortunas do feminismo: do capitalismo administrado pelo Estado à crise neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2024.
GRICE, H. Paul. Logic and conversation. In: COLE, Peter; MORGAN, Jerry L. (org.). Syntax and semantics: speech acts. New York: Academic Press, 1975. v. 3, p. 41-58.
LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou revolução?. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
QUINE, Willard Van Orman; ULLIAN, Joseph S. The web of belief. 2. ed. New York: McGraw-Hill, 1978.
RORTY, Richard. Achieving our country: leftist thought in twentieth-century America. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1998.
RORTY, Richard. Contingency, irony, and solidarity. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.
RORTY, Richard. Philosophy and social hope. London: Penguin Books, 1999.
Notas:
1. Feminismo Shopee: expressão usada de modo crítico e autoral para nomear a apropriação rápida, fragmentada e performática de vocabulários feministas nas redes sociais, sem leitura, mediação social ou projeto político consistente.
2. Shopping de opiniões: metáfora para o consumo rápido de posições políticas nas redes sociais, em que ideias são escolhidas mais por conveniência, identificação momentânea ou desejo de pertencimento do que por reflexão.
3. Por exemplo: chegar dizendo logo “patriarcado”, “heteronormatividade”, “performatividade de gênero”, “interseccionalidade”, “lugar de fala”, “cisgeneridade”, sem antes criar uma ponte com a experiência concreta das pessoas. Para quem já está na universidade ou em certos círculos militantes, essas palavras fazem sentido. Para outro público, podem soar como senha de um grupo fechado: quem entende entra; quem não entende fica de fora.
4. Pautas civilizatórias: expressão usada por Elias Jabbour para defender que temas como igualdade racial, emancipação feminina, questão indígena e questão LGBTQIA+ sejam pensados dentro de um projeto nacional de desenvolvimento, e não como disputas isoladas de identidade.
5. Griceana: referência a Herbert Paul Grice, filósofo da linguagem conhecido por sua teoria da conversação. Grice formulou o princípio de cooperação, segundo o qual os interlocutores, para se entenderem, tendem a colaborar implicitamente por meio de regras conversacionais como quantidade, qualidade, relação e modo.
6. Teia: tomo emprestada de Quine a imagem da “teia de crenças” para pensar políticas públicas. Assim como uma crença não se sustenta sozinha, uma política pública também depende de outras: não há proteção da mulher sem renda, saúde, educação, segurança, transporte, creche, linguagem pública e presença institucional.
