terça-feira, 5 de maio de 2026

Bertrand Russel, Keith Donnellan e o problema 'Alexa'

 Por: Atualpa Ribeiro 
Notas de sala de aula 3 
Disciplina: Filosofia da Linguagem

Na terceira aula, refletimos sobre a filosofia da linguagem no século XX. Foi nesse momento que introduzimos o pensamento de Bertrand Russell a respeito da teoria referencial do significado. Percebemos que muitos filósofos da linguagem daquele período viveram uma tensão decisiva entre gramática, sintaxe e significado. Em grande medida, buscavam compreender de que modo as palavras se conectam ao mundo e como os signos podem representar algo para além de si mesmos.

A professora retomou uma formulação de Russell segundo a qual as palavras possuem significado no sentido de funcionarem como símbolos representativos de algo distinto delas próprias. Nessa perspectiva, o significado de uma expressão linguística estaria ligado ao seu referente, isto é, àquilo a que ela se reporta no mundo. Quando dizemos, por exemplo, que o gato está no tapete, supomos que haja um gato determinado e um tapete determinado aos quais a frase se refere.

Contudo, logo percebemos que a linguagem frequentemente complica esse esquema. Certas expressões são ambíguas porque admitem mais de um referente ou mais de um sentido. O termo *banco* pode remeter a uma instituição financeira ou a um assento. Nesse caso, a palavra isolada não basta. O contexto de uso passa a desempenhar função decisiva para determinar o significado pretendido.

O projeto de Russell buscava, em alguma medida, conferir maior clareza lógica à linguagem e mostrar que muitas proposições poderiam ser analisadas segundo suas formas de referência. Não se tratava simplesmente de afirmar que tudo o que falamos existe de modo imediato no mundo, mas de investigar como a linguagem pode ou não se comprometer com entidades, objetos e fatos.

Entretanto, surgem dificuldades relevantes. Nem toda expressão linguística parece selecionar diretamente elementos da realidade. Palavras como todavia, contudo*, *entretanto* ou *porque* não nomeiam objetos do mundo do mesmo modo que *mesa*, *casa* ou *árvore*. Elas cumprem funções relacionais, conectivas e lógicas dentro do discurso. A tradição lógica chamou muitas dessas expressões de "sincategoremáticas", indicando que seu papel depende do contexto frasal e não de uma referência isolada.

Isso nos levou a um questionamento interessante. Quando utilizamos conjunções, advérbios ou conectivos, estamos diante de referentes propriamente ditos ou diante de operadores da linguagem? A pergunta mostra que a teoria referencial explica parte importante do funcionamento linguístico, mas talvez não a totalidade dele.

Também discutimos que as palavras não se ligam às coisas de maneira óbvia e simples. Em certas perspectivas nominalistas, os nomes seriam convenções humanas, etiquetas simbólicas que utilizamos para organizar o mundo. Em leituras essencialistas, ao contrário, a linguagem expressaria algo da própria natureza das coisas. A tensão entre convenção e natureza acompanha boa parte da história da filosofia.

Nesse cenário, apareceu também o pensamento de Keith Donnellan, que desloca a discussão ao chamar atenção para o uso concreto da linguagem pelo locutor. Em sua distinção entre uso referencial e uso atributivo, Donnellan mostra que uma mesma expressão pode funcionar de modos diferentes conforme a intenção de quem fala e a situação em que se fala. Desse modo, a linguagem não é governada somente pela semântica literal nem apenas pela intenção subjetiva. O fenômeno completo envolve convenções linguísticas, contexto e ação do falante.

Essa perspectiva nos provocou ainda mais quando surgiram exemplos como 'a autora de Dom Casmurro' ou 'o atual presidente da República'. Em casos assim, a linguagem parece operar por descrições que dependem de circunstâncias históricas e sociais. Não basta olhar para a palavra isoladamente. É preciso considerar quem fala, quando fala e a que realidade compartilhada se remete.

Em meio a essas discussões, ocorreram algumas digressões que me pareceram fecundas. Pensei, por exemplo, na frase *Marte tem homens*. Dependendo da entonação e do contexto, podemos entendê-la de modos distintos. A frase pode significar que o planeta Marte seria habitado por seres humanos. Pode ainda sugerir que uma pessoa chamada Marte possui relações com homens. O exemplo mostra como a estrutura sintática, sozinha, não encerra o significado. A interpretação exige contexto, expectativas e usos possíveis.

Outra digressão nasceu de uma situação doméstica. Tenho um filho que em breve completará um ano. Depois da aula, percebi que toda vez que digo 'Alexa', ele olha ao redor, percorre os cômodos e parece procurar alguém com esse nome. No entanto, o que existe ali é um dispositivo tecnológico ativado por voz. Fiquei me perguntando o que Russell e Donnellan diriam diante desse caso.

Talvez Russell observasse que o nome 'Alexa' se refere, naquele contexto, ao aparelho ou ao sistema associado a ele. Talvez Donnellan insistisse que o mais importante seria notar o uso concreto da expressão, pois quando pronunciamos *Alexa* não estamos apenas nomeando algo, mas acionando uma prática comunicativa específica. O nome funciona como chamada, comando e referência ao mesmo tempo.

Imagem elaborada por IA (copilot)

Esses exemplos sugerem que a linguagem contemporânea desafia teorias clássicas sem necessariamente anulá-las. Em vez de considerar injustamente que tais pensadores nada responderiam, talvez seja mais correto afirmar que seus conceitos precisariam ser ampliados diante de novas formas de realidade técnica e digital.

Saímos da aula com a impressão de que a filosofia da linguagem permanece viva justamente porque a linguagem muda conosco. Novos objetos, novas tecnologias e novas práticas comunicativas recolocam antigas perguntas. O que significa referir? Como as palavras se ligam ao mundo? Em que medida falar é descrever, agir ou interpretar? Essas questões são antigas, mas continuam renovadamente atuais.

Por que cresce o debate ético quando diminuem os critérios que orientam a ação?

Por: Atualpa Ribeiro
Disciplina: Ética Normativa 
Nota de sala de aula 2

Na segunda aula de ética normativa, lemos o prefácio de Henrique Cláudio de Lima Vaz. A leitura introduziu um problema que orienta o texto. Há ampliação da produção técnica e do acúmulo de bens, ao lado de enfraquecimento dos referenciais valorativos. A pergunta que guiou a discussão foi direta. Por que cresce o debate ético quando diminuem os critérios que orientam a ação?

O texto indica que esse crescimento envolve a passagem do mundo da natureza para o mundo da cultura. Esse deslocamento amplia a capacidade humana de produzir e organizar a vida social. Ao mesmo tempo, ocorre redução do horizonte simbólico que sustenta valores. O resultado é uma tensão interna. Avanço técnico convive com instabilidade normativa.

Identificamos, então, um primeiro movimento. Liberdade humana e necessidade de normas coexistem. O ser humano cria formas culturais, institui práticas e redefine padrões. Essa criação, contudo, não pode ocorrer sem critérios. Sem algum tipo de orientação comum, a ação perde direção e a convivência se fragiliza. A liberdade exige parâmetros que a tornem exercitável no espaço coletivo.


Imagem produzida por IA (copilot).

O segundo movimento explicita uma exigência do processo cultural. Não se trata de lei jurídica. Trata-se de uma condição de inteligibilidade da cultura. Toda criação humana requer algum grau de ordenação. Quando essa exigência é ignorada, as práticas se dispersam e os critérios de avaliação se tornam instáveis.

O terceiro movimento introduz o conceito de ethos. Entendemos ethos como o conjunto de valores, disposições e normas que organizam uma forma de vida. A cultura não permanece no nível da invenção isolada. Ela se estabiliza em padrões compartilhados. Esses padrões orientam decisões e permitem continuidade social.

O quarto movimento decorre desse ponto. Se a cultura se organiza como ethos, torna-se necessária uma ordenação normativa mais explícita. O ser humano precisa avaliar o que considera bem e definir a direção de suas ações. Sem esse referencial, a cultura perde coerência interna e capacidade de orientar condutas.

O quinto movimento aborda a autorrealização humana. O texto sugere uma exigência ligada à própria condição do ser humano. A cultura não se justifica por resultados imediatos. Ela está vinculada à possibilidade de realização humana. A questão ética, portanto, envolve a definição do que conta como realização.

Na fundamentação ética, o texto remete à tradição aristotélica, na qual a ação se orienta por um fim e por uma concepção de bem. Retoma também a ideia de vida boa como critério de avaliação. Em paralelo, apresenta crítica ao relativismo radical, entendido como posição que elimina critérios de avaliação entre valores.

Nesse ponto, Lima Vaz associa relativismo e hedonismo a padrões de comportamento presentes na globalização. A crítica não recai sobre a diversidade cultural. O alvo é a ausência de critérios que permitam julgar práticas e orientar escolhas.O prefácio menciona ainda Georg Wilhelm Friedrich Hegel, ao tratar da reinscrição constante da reflexão filosófica no conceito. Há também referência a Socrates, apresentado como ponto inicial da reflexão sistemática sobre a conduta humana.

Ao final da aula, formulamos uma questão que permanece aberta. Como sustentar a liberdade sem abandonar critérios normativos que tornem possível a vida em comum? A ética aparece, assim, como resposta a uma tensão real entre criação humana e necessidade de orientação.

Referência

 VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Introdução à ética filosófica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Expressão linguística, Russell e Donellan

 Por: Atualpa Ribeiro 
Notas de sala de aula 1, 2 
Disciplina: Filosofia da Linguagem

Vamos para mais uma nota de sala de aula. Desta vez tentaremos condensar dois encontros neste texto, haja vista que a professora doutora Tamires Dal Magro, titular da disciplina, iniciou a aula retomando discussões anteriores. O objetivo era rememorar o que havíamos debatido acerca da expressão linguística, da teoria referencial do significado em Bertrand Russell (1872‑1970) e dos desdobramentos posteriores presentes em Keith Donnellan (1931‑2015).

Num primeiro momento, fiquei impressionado, e ainda estou, com a dedicação ao estudo que a professora Tamires demonstra. Aparentemente ela é mais jovem que muitos dos estudantes presentes em sala e, ainda assim, possui cinco pós‑doutorados, todos ligados à filosofia da matemática, tendo realizado trajetórias acadêmicas que atravessaram de Santa Catarina à Bahia. Considero admirável essa verve acadêmica que não tergiversa diante da pesquisa séria. Realmente, são poucas as pessoas que conhecemos cuja vida parece tão inteiramente dedicada ao estudo rigoroso.

Na primeira aula, foi apresentado o itinerário da disciplina, isto é, os autores centrais e a metodologia que adotaríamos no processo avaliativo. Entre os nomes destacados aparecem William Lycan (1945‑), com uma apresentação sistemática do problema do significado, John Dewey (1859‑1952), com a concepção pragmatista da linguagem como prática, H. P. Grice (1913‑1988), com a teoria da implicatura e Susan Stebbing (1885‑1943), cuja defesa da clareza dos conceitos e da responsabilidade intelectual no uso público da linguagem permanece atual. Esse autores destacam o percurso em caminhos distintos, investigam o que significa falar, compreender e agir linguisticamente.

Imagem criada por IA (copilot)

Em seguida a professora informou que o ensaio será uma das formas de avaliação da disciplina. Confesso que a notícia me atravessou com certa angústia, pois, na maior parte das vezes em que escrevi, permaneci nas malhas rígidas do artigo científico. Agora retorno ao desafio de elaborar, de fato, um ensaio. Ao mesmo tempo, reconheço que há nesse gênero algo com que me identifico profundamente. O ensaio preserva uma liberdade rara, um certo desapego às estruturas estanques, além de permitir uma escrita que tensiona o tema, desloca perspectivas e se move com maior ousadia intelectual. No meu caso, isso se torna ainda mais significativo, já que pretendo trabalhar linguagem e memória, campos que exigem abertura reflexiva.

A proposta da professora consistiu em articular a disciplina com nossas pesquisas de tese, que posteriormente serão apresentadas aos colegas. Os colegas poderão colaborar com a discussão e com o aperfeiçoamento do texto. Podemos encarar essa proposta como um exercício duplamente fecundo. Ao mesmo tempo em que aprofunda os conteúdos da disciplina, também nos impulsiona a amadurecer nossas investigações pessoais.

Dando continuidade ao encontro, a professora lançou uma provocação que permaneceu ecoando em nós. Muitas vezes reduzimos a expressão linguística a uma mera exteriorização, como se ela servisse como uma vitrine para expor pensamentos já prontos. A frase desencadeou um turbilhão de sinapses. Isso porque aquilo que para alguns pode parecer um conjunto de palavras, para outros pode constituir um quadro inteiro de sentidos. Nesse espaço, as palavras surgem como instrumentos de elaboração do discurso e, por consequência, de aprimoramento do próprio ser humano.

Ela prosseguiu afirmando que a comunicação depende da argumentação pública. Por essa razão, falar não pode ser entendido como um jogo estritamente privado de linguagem. Ainda que cada sujeito possua uma roupagem linguística singular, essa roupagem se transforma continuamente no uso comum. Em certos momentos aparece elegante, em outros rasgada, remendada, reinventada. O contato com o espaço público modifica a linguagem e também modifica quem fala.

Num segundo momento da aula, a professora percorreu brevemente alguns marcos da tradição filosófica ligados ao problema da linguagem, não de forma explicita, mas pude perceber esse caminho. Passamos por Platão (428/427 a.C.‑348/347 a.C.), Aristóteles (384 a.C.‑322 a.C.), pela Idade Média, por Agostinho de Hipona (354‑430) e Tomás de Aquino (1225‑1274). Em seguida, voltou‑se à filosofia contemporânea, realizando uma breve pausa na teoria referencialista. Nesse ponto, apresentou uma questão decisiva: devemos compreender a linguagem prioritariamente a partir do uso vivo da fala ou das estruturas gramaticais que a organizam?

Essa provocação foi seguida da célebre afirmação de Humpty Dumpty em Alice Através do Espelho - “quando uso uma palavra, ela significa exatamente o que eu quero que signifique, nem mais nem menos” - além de operar como recurso lúdico, se expõe como um experimento conceitual que antecipa uma das tensões centrais da filosofia da linguagem. Fiz algumas anotações com relação à linguagem, fiquei com receio de falar e acabar viajando. Vamos lá: enquanto a figura literária sugere a possibilidade de um sentido soberano e privado, a tradição pragmática e analítica demonstra que a linguagem não se submete a decretos individuais, mas se constitui no uso compartilhado, nos jogos de linguagem e nas formas de vida coletivas. A performatividade das palavras não emana do arbítrio solitário, mas da disputa pública por legitimidade, onde nomear, testemunhar e redescrever são atos que só adquirem força na tessitura social. É por isso que a memória político-cultural não se cristaliza por imposição unilateral, à maneira do Ovo Quebrado, ela emerge, circula e se transforma nas práticas linguísticas partilhadas, onde o poder de rearticular o passado reside menos no domínio privado da fala e mais na capacidade de reconectar vocabulários a horizontes comuns de sentido e ação.

Chegamos à conclusão de que, embora a filosofia possa ser entendida como uma espécie de gramática dos conceitos, a fala frequentemente antecede muitas formalizações normativas. Somente depois se consolidam descrições gramaticais, morfológicas e sintáticas mais estáveis. Em outras palavras, antes de diversas regras sistematizadas existe a necessidade humana de dizer, responder, nomear e compartilhar experiências.

A partir dessa discussão, compreendemos que o significado pode emergir das práticas linguísticas historicamente constituídas. Assim, toda expressão carrega uma intenção, uma situação concreta de uso e um horizonte interpretativo. Nenhuma palavra existe em estado puro ou isolado. Toda expressão pode ser atravessada por relações históricas, sociais e políticas. Falar é sempre intervir, ainda que discretamente, no mundo compartilhado.

Diante disso, observamos também as teorias da verdade, cujo objetivo consiste em relacionar palavras e coisas. Entretanto, a aula mostrou que o significado talvez não dependa exclusivamente dessa correspondência. A crítica de Donellan a Russell apareceu nesse momento, haja vista que o autor leva em consideração os efeitos do locutor, a intenção do falante, o contexto de enunciação e o uso efetivo da linguagem parecem desempenhar papel decisivo na comunicação humana.

Posteriormente, a professora comentou brevemente J. L. Austin (1911‑1960) e introduziu a teoria dos atos de fala. Nesse horizonte, a fala deixa de ser vista como simples veículo de informações e passa a ser compreendida como ação. Quando alguém diz “eu vos declaro marido e mulher”, algo efetivamente acontece pela força institucional da linguagem. As palavras, por assim dizer, ganham pernas e desfilam, no mundo, em muitos casos são apalpadas, sofrem atentados, mas sempre dizem algo.

Tive a impressão de que estudar filosofia da linguagem é investigar algo muito maior do que regras gramaticais ou definições abstratas. Trata‑se de pensar como nos constituímos por meio da linguagem, como disputamos sentidos, como recordamos, persuadimos, prometemos, criamos vínculos e transformamos realidades. Talvez por isso o ensaio, com sua liberdade crítica, pareça forma tão adequada para continuar essa reflexão. 

A chaminé estava esfriando e então, claro, precisava repor suas energias esse foi a deixar para sabermos que a aula estava acabando.

Bertrand Russel, Keith Donnellan e o problema 'Alexa'

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