Vamos para mais uma nota de sala de aula. Desta vez tentaremos condensar dois encontros neste texto, haja vista que a professora doutora Tamires Dal Magro, titular da disciplina, iniciou a aula retomando discussões anteriores. O objetivo era rememorar o que havíamos debatido acerca da expressão linguística, da teoria referencial do significado em Bertrand Russell (1872‑1970) e dos desdobramentos posteriores presentes em Keith Donnellan (1931‑2015).
Num primeiro momento, fiquei impressionado, e ainda estou, com a dedicação ao estudo que a professora Tamires demonstra. Aparentemente ela é mais jovem que muitos dos estudantes presentes em sala e, ainda assim, possui cinco pós‑doutorados, todos ligados à filosofia da matemática, tendo realizado trajetórias acadêmicas que atravessaram de Santa Catarina à Bahia. Considero admirável essa verve acadêmica que não tergiversa diante da pesquisa séria. Realmente, são poucas as pessoas que conhecemos cuja vida parece tão inteiramente dedicada ao estudo rigoroso.
Na primeira aula, foi apresentado o itinerário da disciplina, isto é, os autores centrais e a metodologia que adotaríamos no processo avaliativo. Entre os nomes destacados aparecem William Lycan (1945‑), com uma apresentação sistemática do problema do significado, John Dewey (1859‑1952), com a concepção pragmatista da linguagem como prática, H. P. Grice (1913‑1988), com a teoria da implicatura e Susan Stebbing (1885‑1943), cuja defesa da clareza dos conceitos e da responsabilidade intelectual no uso público da linguagem permanece atual. Esse autores destacam o percurso em caminhos distintos, investigam o que significa falar, compreender e agir linguisticamente.
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Em seguida a professora informou que o ensaio será uma das formas de avaliação da disciplina. Confesso que a notícia me atravessou com certa angústia, pois, na maior parte das vezes em que escrevi, permaneci nas malhas rígidas do artigo científico. Agora retorno ao desafio de elaborar, de fato, um ensaio. Ao mesmo tempo, reconheço que há nesse gênero algo com que me identifico profundamente. O ensaio preserva uma liberdade rara, um certo desapego às estruturas estanques, além de permitir uma escrita que tensiona o tema, desloca perspectivas e se move com maior ousadia intelectual. No meu caso, isso se torna ainda mais significativo, já que pretendo trabalhar linguagem e memória, campos que exigem abertura reflexiva.
A proposta da professora consistiu em articular a disciplina com nossas pesquisas de tese, que posteriormente serão apresentadas aos colegas. Os colegas poderão colaborar com a discussão e com o aperfeiçoamento do texto. Podemos encarar essa proposta como um exercício duplamente fecundo. Ao mesmo tempo em que aprofunda os conteúdos da disciplina, também nos impulsiona a amadurecer nossas investigações pessoais.
Dando continuidade ao encontro, a professora lançou uma provocação que permaneceu ecoando em nós. Muitas vezes reduzimos a expressão linguística a uma mera exteriorização, como se ela servisse como uma vitrine para expor pensamentos já prontos. A frase desencadeou um turbilhão de sinapses. Isso porque aquilo que para alguns pode parecer um conjunto de palavras, para outros pode constituir um quadro inteiro de sentidos. Nesse espaço, as palavras surgem como instrumentos de elaboração do discurso e, por consequência, de aprimoramento do próprio ser humano.
Ela prosseguiu afirmando que a comunicação depende da argumentação pública. Por essa razão, falar não pode ser entendido como um jogo estritamente privado de linguagem. Ainda que cada sujeito possua uma roupagem linguística singular, essa roupagem se transforma continuamente no uso comum. Em certos momentos aparece elegante, em outros rasgada, remendada, reinventada. O contato com o espaço público modifica a linguagem e também modifica quem fala.
Num segundo momento da aula, a professora percorreu brevemente alguns marcos da tradição filosófica ligados ao problema da linguagem, não de forma explicita, mas pude perceber esse caminho. Passamos por Platão (428/427 a.C.‑348/347 a.C.), Aristóteles (384 a.C.‑322 a.C.), pela Idade Média, por Agostinho de Hipona (354‑430) e Tomás de Aquino (1225‑1274). Em seguida, voltou‑se à filosofia contemporânea, realizando uma breve pausa na teoria referencialista. Nesse ponto, apresentou uma questão decisiva: devemos compreender a linguagem prioritariamente a partir do uso vivo da fala ou das estruturas gramaticais que a organizam?
Essa provocação foi seguida da célebre afirmação de Humpty Dumpty em Alice Através do Espelho - “quando uso uma palavra, ela significa exatamente o que eu quero que signifique, nem mais nem menos” - além de operar como recurso lúdico, se expõe como um experimento conceitual que antecipa uma das tensões centrais da filosofia da linguagem. Fiz algumas anotações com relação à linguagem, fiquei com receio de falar e acabar viajando. Vamos lá: enquanto a figura literária sugere a possibilidade de um sentido soberano e privado, a tradição pragmática e analítica demonstra que a linguagem não se submete a decretos individuais, mas se constitui no uso compartilhado, nos jogos de linguagem e nas formas de vida coletivas. A performatividade das palavras não emana do arbítrio solitário, mas da disputa pública por legitimidade, onde nomear, testemunhar e redescrever são atos que só adquirem força na tessitura social. É por isso que a memória político-cultural não se cristaliza por imposição unilateral, à maneira do Ovo Quebrado, ela emerge, circula e se transforma nas práticas linguísticas partilhadas, onde o poder de rearticular o passado reside menos no domínio privado da fala e mais na capacidade de reconectar vocabulários a horizontes comuns de sentido e ação.
Chegamos à conclusão de que, embora a filosofia possa ser entendida como uma espécie de gramática dos conceitos, a fala frequentemente antecede muitas formalizações normativas. Somente depois se consolidam descrições gramaticais, morfológicas e sintáticas mais estáveis. Em outras palavras, antes de diversas regras sistematizadas existe a necessidade humana de dizer, responder, nomear e compartilhar experiências.
A partir dessa discussão, compreendemos que o significado pode emergir das práticas linguísticas historicamente constituídas. Assim, toda expressão carrega uma intenção, uma situação concreta de uso e um horizonte interpretativo. Nenhuma palavra existe em estado puro ou isolado. Toda expressão pode ser atravessada por relações históricas, sociais e políticas. Falar é sempre intervir, ainda que discretamente, no mundo compartilhado.
Diante disso, observamos também as teorias da verdade, cujo objetivo consiste em relacionar palavras e coisas. Entretanto, a aula mostrou que o significado talvez não dependa exclusivamente dessa correspondência. A crítica de Donellan a Russell apareceu nesse momento, haja vista que o autor leva em consideração os efeitos do locutor, a intenção do falante, o contexto de enunciação e o uso efetivo da linguagem parecem desempenhar papel decisivo na comunicação humana.
Posteriormente, a professora comentou brevemente J. L. Austin (1911‑1960) e introduziu a teoria dos atos de fala. Nesse horizonte, a fala deixa de ser vista como simples veículo de informações e passa a ser compreendida como ação. Quando alguém diz “eu vos declaro marido e mulher”, algo efetivamente acontece pela força institucional da linguagem. As palavras, por assim dizer, ganham pernas e desfilam, no mundo, em muitos casos são apalpadas, sofrem atentados, mas sempre dizem algo.
Tive a impressão de que estudar filosofia da linguagem é investigar algo muito maior do que regras gramaticais ou definições abstratas. Trata‑se de pensar como nos constituímos por meio da linguagem, como disputamos sentidos, como recordamos, persuadimos, prometemos, criamos vínculos e transformamos realidades. Talvez por isso o ensaio, com sua liberdade crítica, pareça forma tão adequada para continuar essa reflexão.
A chaminé estava esfriando e então, claro, precisava repor suas energias esse foi a deixar para sabermos que a aula estava acabando.