sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Pensamento em trânsito: notas sobre o feminismo Shopee

Por Atualpa Ribeiro

Gravei estas notas durante o percurso de Teresina a Crateús. Estava sozinho, com sono, e encontrei nos áudios uma forma de manter a atenção na estrada e, ao mesmo tempo, registrar impressões da semana, leituras, inquietações e possíveis textos para o blog. Era pensamento em trânsito: no sentido literal, porque eu dirigia; e no sentido interno, porque algumas ideias ainda estavam se deslocando, sem repouso, sem forma final.

A primeira delas foi tentar entender um fenômeno que passei a chamar de feminismo Shopee1.

Uso essa expressão como imagem crítica. A Shopee, nessas reflexões, não me interessa como empresa, mas como figura de um grande shopping popular, um mercado veloz, cheio de ofertas, atalhos, imitações, achados, bugigangas e consumo por impulso. O que chamo de feminismo Shopee é a apropriação rápida de um vocabulário feminista por pessoas que, muitas vezes, nunca passaram pelas autoras, pelas lutas, pelas contradições e pelos problemas que deram densidade ao movimento.

Fala-se em feminismo por cortes de vídeo, frases prontas, postagens no X, cards coloridos, respostas entregues por chat, slogans de trinta segundos e indignações de ocasião. É um shopping de opiniões2. A pessoa entra, escolhe a frase mais conveniente, veste aquilo como sinal de modernidade e sai discursando como se tivesse elaborado alguma coisa.

Não estou dizendo que só pode falar de feminismo quem leu tudo. Isso seria pedante e injusto. O problema é outro: transformar um debate sério em adereço de pertencimento. Simone de Beauvoir, Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Nancy Fraser, Judith Butler, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro e tantas outras não podem ser reduzidas a senha3 de bolha, a palavra de ordem ou a enfeite de rede social.

O feminismo, quando levado a sério, exige leitura, escuta, conflito, história e proposição. O feminismo Shopee, ao contrário, vive de panfleto pelo panfleto. Tem frase, mas não tem projeto. Tem indignação, mas pouca ação. Tem sigla, mas nem sempre tem povo. Tem vocabulário, mas nem sempre tem chão.

Talvez por isso eu tenha pensado, ainda no áudio, em distinguir esse fenômeno de um feminismo mais prudente, mais enraizado, talvez até conservador em certo sentido do termo. Sei que “conservador” é uma palavra problemática. Hoje, quase toda palavra terminada em “ismo” cai rapidamente na máquina da suspeita: conservadorismo, comunismo, marxismo, esquerdismo, identitarismo. Tudo vira rótulo antes de virar pensamento.

Mesmo assim, quero preservar a provocação. Quando falo em um feminismo mais conservador, não estou falando de submissão da mulher, nem de recusa de direitos, nem de moralismo barato. Refiro-me a uma postura que se pergunta: qual discurso chega à mulher da periferia? Qual vocabulário permite diálogo numa comunidade de base, numa pastoral, numa escola pública, numa associação de bairro? Qual pauta altera a vida concreta de uma mulher pobre, negra, trabalhadora, mãe, cuidadora, endividada, cansada, invisível?

O debate se perde quando a palavra “igualdade” é dita da mesma maneira por pessoas que vivem mundos inteiramente distintos. Uma mulher de classe média alta, com empregada doméstica em casa, pode falar em igualdade de direitos. Mas, para a mulher que limpa sua casa, pega ônibus, sustenta filhos, enfrenta fila no posto de saúde e convive com violência no território, essa igualdade precisa ter corpo, salário, proteção, creche, comida, tempo e segurança.

Sem isso, a palavra empobrece.

É nesse ponto que o feminismo Shopee me incomoda. Ele reage com o fígado, não com pensamento. Confunde falar alto com ter razão. Confunde lacração com política. Confunde agressividade com coragem. Ao fazer isso, entrega para os adversários do feminismo exatamente a caricatura que eles desejam combater: a imagem de que feminismo é briga, barraco, ódio aos homens, destruição da família, confusão moral.

O problema não está no feminismo. Está na forma como certas pessoas o divulgam, consomem e deformam.

Quando estou em espaços de catequese, pastoral ou comunidade periférica, percebo isso com muita nitidez. Se eu uso palavras que circulam bem na universidade, mas não foram traduzidas para a experiência concreta daquela comunidade, crio distância em vez de conversa. Não porque as pessoas sejam incapazes de entender. Ao contrário. Muitas vezes entendem melhor do que eu. Mas é preciso construir ponte, não jogar senha.

Lembro de uma senhora negra, de uma associação comunitária, que ouviu falas acadêmicas sobre mulheres e depois perguntou, com entusiasmo, como poderia levar aquilo para sua associação. Ela se encantou com a palavra “empoderada”, mas não a usou como ornamento. Ela queria saber o que fazer com aquilo. Queria levar a discussão para outras mulheres. Ali havia materialidade. Havia desejo de ação. Havia comunidade.

Esse exemplo vale mais do que muita panfletagem de rede social.

A questão, então, não é abandonar as pautas das mulheres, da população negra, da população LGBTQIA+ ou dos povos indígenas. Isso seria uma regressão moral e política. A questão é perguntar se essas pautas estão sendo ligadas a um projeto de país ou se estão sendo consumidas como mercadoria simbólica. Elias Jabbour, por exemplo, tem insistido em distinguir “pautas identitárias” de “pautas civilizatórias”4, defendendo que emancipação feminina, igualdade racial, questão LGBTQIA+ e questão indígena precisam ser pensadas dentro de um projeto nacional, e não como fragmentos isolados de disputa cultural.

Essa distinção ajuda. O problema não é a pauta. O problema é quando a pauta perde mediação social, perde povo, perde chão, perde relação com trabalho, renda, território, saúde, infância, soberania, educação e segurança.

Foi a partir disso que as impressões que tive das leituras que realizei de Richard Rorty começaram a organizar as prateleiras. Em Achieving Our Country, Rorty critica uma parte da esquerda acadêmica que teria se afastado da política reformista, dos sindicatos, da justiça econômica e da construção de maioria social, preferindo muitas vezes uma postura de espectador crítico, mais voltada à denúncia cultural do que à organização pública. A Stanford Encyclopedia of Philosophy resume esse ponto dizendo que Rorty via a “esquerda cultural” como inclinada a privilegiar certas formas de desigualdade ligadas à identidade, enquanto deixava em segundo plano a desigualdade econômica.

Essa crítica de Rorty não precisa ser aceita sem resistência. Ele também pode ser acusado de simplificar debates culturais e de subestimar a força política de certas lutas de reconhecimento. Mas sua advertência continua útil: uma política que só denuncia, sem propor, termina falando para os próprios convertidos.

E uma política que só fala para os convertidos perde o mundo.

O feminismo Shopee sofre desse problema. Ele fala para a bolha, recebe aplauso da bolha, produz frases para a bolha e, depois, estranha quando a periferia, a igreja, o trabalhador comum ou a mulher da associação não se reconhecem naquele discurso. Falta a pergunta mais simples: quem está me ouvindo? Que repertório essa pessoa tem? Que dores ela traz? Que palavra pode abrir conversa em vez de fechar a porta?

Aqui lembro também de uma dimensão quase griceana5 da comunicação: não basta falar; é preciso cooperar para que haja entendimento. Eu erro quando suponho que o outro já possui as mesmas referências que eu. Mas o outro também precisa se abrir ao que eu digo. Sem esse duplo movimento, não há diálogo. Há apenas monólogos concorrentes.

Daí minha preocupação com certas prioridades da política cultural no Brasil. Não se trata de negar temas sensíveis e que foram anulados por décadas. Trata-se de ordenar urgências públicas. Antes de transformar todo debate em guerra moral sobre casos-limite, precisamos perguntar: há comida na mesa? Há atendimento oncológico? Há fila de transplante? Há proteção para crianças e adolescentes contra facções? Há escola funcionando? Há creche? Há segurança para meninas? Há condições para uma mulher sair de uma relação violenta?

Se a resposta for não, qualquer discurso emancipador precisa passar por essa teia, para utilizar um termo quineano6, de políticas públicas.

Rorty gostava de lembrar que, se cuidarmos da liberdade, a verdade poderá cuidar de si mesma. A frase pode soar simples demais, mas tem força política: sem liberdade concreta, sem proteção contra a crueldade, sem condições materiais mínimas, a disputa de vocabulários vira luxo de quem tem tempo para performar opinião.

By: Imagem produzida por IA (copilot)

O mesmo vale para o marxismo de rede social. Há gente que se diz marxista sem ler Marx, sem estudar trabalho, mais-valia, capital, luta de classes, Estado, mercadoria, exploração. Conhece os termos por verbetes prontos, cortes de vídeo, posts inflamados e notas de rodapé. O resultado é uma dialética sem antítese real. Quando todo mundo concorda, não há pensamento. Há confirmação coletiva. A síntese vira apenas a tese repetida com maquiagem.

Por isso, minha crítica não é contra o feminismo. É contra sua versão de vitrine. Contra o feminismo sem mediação, sem leitura, sem prática, sem povo, sem projeto. Contra o uso de palavras fortes para esconder a ausência de ação. Contra a substituição da política por performance.

A história mostra que discursos inflamados, à esquerda e à direita, costumam cobrar a conta de quem está longe da mesa onde as decisões são tomadas. Os líderes, os intelectuais de palco, os performistas, os influenciadores e os oportunistas raramente ficam na ponta da lança. Quem paga são os mais pobres, os mais expostos, os que acreditam nas palavras de ordem e depois ficam sozinhos diante das consequências.

Talvez seja por isso que eu tenha gravado esse áudio dirigindo. Entre uma cidade e outra, com sono, caminhões na estrada, bodes, vacas, vaqueiros intermediando as paradas, tombamentos de carretas e pensamentos correndo mais rápido do que as palavras, o que eu tentava dizer era simples: precisamos de menos ornamento e mais responsabilidade. Menos panfleto e mais escuta. Menos vitrine e mais chão.

Se o feminismo quiser falar com o Brasil real, precisa sair do shopping de opiniões. Precisa chegar à associação, à escola, à igreja, ao posto de saúde, à cozinha, à fila, ao ônibus, ao bairro, à mulher que não tem tempo de decorar siglas, mas sabe muito bem o que é injustiça.

Ali talvez comece uma conversa menos barulhenta e mais séria.

E talvez seja essa conversa que o feminismo Shopee ainda não conseguiu fazer.

Referências

OBS.: Embora não tenha realizado menções ipis verbis desses/dessas autores (as) vale como indicação de leitura. 

JABBOUR, Elias. Uma esquerda que não percebe a centralidade da questão nacional não é digna do poder político. Entrevista concedida a Leandro Demori. O Cafezinho, 9 jul. 2025. Disponível em: https://www.ocafezinho.com/2025/07/09/jabbour-uma-esquerda-que-nao-percebe-a-centralidade-da-questao-nacional-nao-e-digna-do-poder-politico/. Acesso em: 9 out. 2026.

ARENDT, Hannah. A condição humana. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2020.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 22. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.

CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

FRASER, Nancy. Fortunas do feminismo: do capitalismo administrado pelo Estado à crise neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2024.

GRICE, H. Paul. Logic and conversation. In: COLE, Peter; MORGAN, Jerry L. (org.). Syntax and semantics: speech acts. New York: Academic Press, 1975. v. 3, p. 41-58.

LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou revolução?. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

QUINE, Willard Van Orman; ULLIAN, Joseph S. The web of belief. 2. ed. New York: McGraw-Hill, 1978.

RORTY, Richard. Achieving our country: leftist thought in twentieth-century America. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1998.

RORTY, Richard. Contingency, irony, and solidarity. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.

RORTY, Richard. Philosophy and social hope. London: Penguin Books, 1999.

Notas: 

1. Feminismo Shopee: expressão usada de modo crítico e autoral para nomear a apropriação rápida, fragmentada e performática de vocabulários feministas nas redes sociais, sem leitura, mediação social ou projeto político consistente.

2. Shopping de opiniões: metáfora para o consumo rápido de posições políticas nas redes sociais, em que ideias são escolhidas mais por conveniência, identificação momentânea ou desejo de pertencimento do que por reflexão.

3. Por exemplo: chegar dizendo logo “patriarcado”, “heteronormatividade”, “performatividade de gênero”, “interseccionalidade”, “lugar de fala”, “cisgeneridade”, sem antes criar uma ponte com a experiência concreta das pessoas. Para quem já está na universidade ou em certos círculos militantes, essas palavras fazem sentido. Para outro público, podem soar como senha de um grupo fechado: quem entende entra; quem não entende fica de fora.

4. Pautas civilizatórias: expressão usada por Elias Jabbour para defender que temas como igualdade racial, emancipação feminina, questão indígena e questão LGBTQIA+ sejam pensados dentro de um projeto nacional de desenvolvimento, e não como disputas isoladas de identidade.

5. Griceana: referência a Herbert Paul Grice, filósofo da linguagem conhecido por sua teoria da conversação. Grice formulou o princípio de cooperação, segundo o qual os interlocutores, para se entenderem, tendem a colaborar implicitamente por meio de regras conversacionais como quantidade, qualidade, relação e modo.

6. Teia: tomo emprestada de Quine a imagem da “teia de crenças” para pensar políticas públicas. Assim como uma crença não se sustenta sozinha, uma política pública também depende de outras: não há proteção da mulher sem renda, saúde, educação, segurança, transporte, creche, linguagem pública e presença institucional.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Minhas piores férias

Por Atualpa Ribeiro 

Escrevi em 2002 estava na 6° série. 

Eu, meus pais e meu irmão Gerardo fomos passar as férias em Corrente. No caminho, o pneu estourou e meu pai demorou duas horas para trocá-lo. Minha mãe ficava só reclamando que ia demorar para ver a minha avó.

Então começou a escurecer. Meu pai disse que nós íamos passar a noite em Barreiras, que ficava no caminho de Corrente. Quando chegamos, ele alugou dois quartos, mas um deles não tinha água. Quando a gente abria a torneira, saía um pó amarelado.

Meu pai foi reclamar com o dono do hotel, mas ele disse que não havia nada de errado com o encanamento. Então meu pai se enfezou e mandou o dono do hotel ir tomar naquele lugar onde as patas costumam tomar. Minha mãe disse que nunca tinha visto um homem tão ignorante em toda a vida dela.

Aí o balconista começou a empurrar o meu pai, e minha mãe disse para ele não ligar. Meu pai seguiu o conselho dela e, depois da discussão, continuamos a viagem para Corrente.

Logo quando a gente estava chegando, o pneu furou outra vez. Minha mãe só dizia que essas coisas só aconteciam conosco. Perto dali havia um turista trocando o pneu, e meu pai foi ajudá-lo. Ele disse que estava indo para Uruçuí Preto.

Na entrada da cidade, passou uma moça muito bonita e eu me apaixonei por ela. Foi amor à primeira vista. Ela estava de bicicleta. Minha mãe, curiosa, perguntou o que ela estava fazendo ali. A moça explicou que participava de uma maratona cujo prêmio era de 500 reais e que tinha que ir do Piauí até Corrente de bicicleta.

— Corrente, na Bahia?

— Que estranho. Nós estamos indo para Corrente, mas é no Piauí — ela respondeu.

Quando ela estava saindo, eu disse que ela era uma gatinha. Ela voltou e me deu um tapa bem forte na face. Passei o restante da viagem coçando o lugar do tapa. Doeu muito.

Finalmente chegamos em Corrente. Passamos quinze dias na casa da minha avó. Eu quebrei o braço e meu irmão quebrou o pulso.

E essas foram as minhas férias de verão.


By: Imagem produzida por IA (Gemini)

terça-feira, 5 de maio de 2026

Bertrand Russel, Keith Donnellan e o problema 'Alexa'

 Por: Atualpa Ribeiro 
Notas de sala de aula 3 
Disciplina: Filosofia da Linguagem

Na terceira aula, refletimos sobre a filosofia da linguagem no século XX. Foi nesse momento que introduzimos o pensamento de Bertrand Russell a respeito da teoria referencial do significado. Percebemos que muitos filósofos da linguagem daquele período viveram uma tensão decisiva entre gramática, sintaxe e significado. Em grande medida, buscavam compreender de que modo as palavras se conectam ao mundo e como os signos podem representar algo para além de si mesmos.

A professora retomou uma formulação de Russell segundo a qual as palavras possuem significado no sentido de funcionarem como símbolos representativos de algo distinto delas próprias. Nessa perspectiva, o significado de uma expressão linguística estaria ligado ao seu referente, isto é, àquilo a que ela se reporta no mundo. Quando dizemos, por exemplo, que o gato está no tapete, supomos que haja um gato determinado e um tapete determinado aos quais a frase se refere.

Contudo, logo percebemos que a linguagem frequentemente complica esse esquema. Certas expressões são ambíguas porque admitem mais de um referente ou mais de um sentido. O termo *banco* pode remeter a uma instituição financeira ou a um assento. Nesse caso, a palavra isolada não basta. O contexto de uso passa a desempenhar função decisiva para determinar o significado pretendido.

O projeto de Russell buscava, em alguma medida, conferir maior clareza lógica à linguagem e mostrar que muitas proposições poderiam ser analisadas segundo suas formas de referência. Não se tratava simplesmente de afirmar que tudo o que falamos existe de modo imediato no mundo, mas de investigar como a linguagem pode ou não se comprometer com entidades, objetos e fatos.

Entretanto, surgem dificuldades relevantes. Nem toda expressão linguística parece selecionar diretamente elementos da realidade. Palavras como todavia, contudo*, *entretanto* ou *porque* não nomeiam objetos do mundo do mesmo modo que *mesa*, *casa* ou *árvore*. Elas cumprem funções relacionais, conectivas e lógicas dentro do discurso. A tradição lógica chamou muitas dessas expressões de "sincategoremáticas", indicando que seu papel depende do contexto frasal e não de uma referência isolada.

Isso nos levou a um questionamento interessante. Quando utilizamos conjunções, advérbios ou conectivos, estamos diante de referentes propriamente ditos ou diante de operadores da linguagem? A pergunta mostra que a teoria referencial explica parte importante do funcionamento linguístico, mas talvez não a totalidade dele.

Também discutimos que as palavras não se ligam às coisas de maneira óbvia e simples. Em certas perspectivas nominalistas, os nomes seriam convenções humanas, etiquetas simbólicas que utilizamos para organizar o mundo. Em leituras essencialistas, ao contrário, a linguagem expressaria algo da própria natureza das coisas. A tensão entre convenção e natureza acompanha boa parte da história da filosofia.

Nesse cenário, apareceu também o pensamento de Keith Donnellan, que desloca a discussão ao chamar atenção para o uso concreto da linguagem pelo locutor. Em sua distinção entre uso referencial e uso atributivo, Donnellan mostra que uma mesma expressão pode funcionar de modos diferentes conforme a intenção de quem fala e a situação em que se fala. Desse modo, a linguagem não é governada somente pela semântica literal nem apenas pela intenção subjetiva. O fenômeno completo envolve convenções linguísticas, contexto e ação do falante.

Essa perspectiva nos provocou ainda mais quando surgiram exemplos como 'a autora de Dom Casmurro' ou 'o atual presidente da República'. Em casos assim, a linguagem parece operar por descrições que dependem de circunstâncias históricas e sociais. Não basta olhar para a palavra isoladamente. É preciso considerar quem fala, quando fala e a que realidade compartilhada se remete.

Em meio a essas discussões, ocorreram algumas digressões que me pareceram fecundas. Pensei, por exemplo, na frase *Marte tem homens*. Dependendo da entonação e do contexto, podemos entendê-la de modos distintos. A frase pode significar que o planeta Marte seria habitado por seres humanos. Pode ainda sugerir que uma pessoa chamada Marte possui relações com homens. O exemplo mostra como a estrutura sintática, sozinha, não encerra o significado. A interpretação exige contexto, expectativas e usos possíveis.

Outra digressão nasceu de uma situação doméstica. Tenho um filho que em breve completará um ano. Depois da aula, percebi que toda vez que digo 'Alexa', ele olha ao redor, percorre os cômodos e parece procurar alguém com esse nome. No entanto, o que existe ali é um dispositivo tecnológico ativado por voz. Fiquei me perguntando o que Russell e Donnellan diriam diante desse caso.

Talvez Russell observasse que o nome 'Alexa' se refere, naquele contexto, ao aparelho ou ao sistema associado a ele. Talvez Donnellan insistisse que o mais importante seria notar o uso concreto da expressão, pois quando pronunciamos *Alexa* não estamos apenas nomeando algo, mas acionando uma prática comunicativa específica. O nome funciona como chamada, comando e referência ao mesmo tempo.

Imagem elaborada por IA (copilot)

Esses exemplos sugerem que a linguagem contemporânea desafia teorias clássicas sem necessariamente anulá-las. Em vez de considerar injustamente que tais pensadores nada responderiam, talvez seja mais correto afirmar que seus conceitos precisariam ser ampliados diante de novas formas de realidade técnica e digital.

Saímos da aula com a impressão de que a filosofia da linguagem permanece viva justamente porque a linguagem muda conosco. Novos objetos, novas tecnologias e novas práticas comunicativas recolocam antigas perguntas. O que significa referir? Como as palavras se ligam ao mundo? Em que medida falar é descrever, agir ou interpretar? Essas questões são antigas, mas continuam renovadamente atuais.

Pensamento em trânsito: notas sobre o feminismo Shopee

Por Atualpa Ribeiro Gravei estas notas durante o percurso de Teresina a Crateús. Estava sozinho, com sono, e encontrei nos áudios uma forma...