sexta-feira, 24 de abril de 2026

Expressão linguística, Russell e Donellan

 Por: Atualpa Ribeiro 
Notas de sala de aula 1 
Disciplina: Filosofia da Linguagem

Vamos para mais uma nota de sala de aula. Desta vez tentaremos condensar três encontros neste texto, haja vista que a professora doutora Tamires Dal Magro, titular da disciplina, iniciou a aula retomando discussões anteriores. O objetivo era rememorar o que havíamos debatido acerca da expressão linguística, da teoria referencial do significado em Bertrand Russell (1872‑1970) e dos desdobramentos posteriores presentes em Keith Donnellan (1931‑2015).

Num primeiro momento, fiquei impressionado, e ainda estou, com a dedicação ao estudo que a professora Tamires demonstra. Aparentemente ela é mais jovem que muitos dos estudantes presentes em sala e, ainda assim, possui cinco pós‑doutorados, todos ligados à filosofia da matemática, tendo realizado trajetórias acadêmicas que atravessam de Santa Catarina à Bahia. Considero admirável essa verve acadêmica que não tergiversa diante da pesquisa séria. Realmente, são poucas as pessoas que conhecemos cuja vida parece tão inteiramente dedicada ao estudo rigoroso.

Na primeira aula, foi apresentado o itinerário da disciplina, isto é, os autores centrais e a metodologia que adotaríamos no processo avaliativo. Entre os nomes destacados aparecem William Lycan (1945‑), com uma apresentação sistemática do problema do significado, John Dewey, com a concepção pragmatista da linguagem como prática, H. P. Grice (1913‑1988), com a teoria da implicatura, Dewey, ao examinar a linguagem como forma de ação, e Susan Stebbing (1885‑1943), cuja defesa da clareza dos conceitos e da responsabilidade intelectual no uso público da linguagem permanece atual. Esse autores destacam o percurso em caminhos distintos, investigam o que significa falar, compreender e agir linguisticamente.

Imagem criada por IA (copilot)

Em seguida a professora informou que o ensaio será uma das formas de avaliação da disciplina. Confesso que a notícia me atravessou com certa angústia, pois, na maior parte das vezes em que escrevi, permaneci nas malhas rígidas do artigo científico. Agora retorno ao desafio de elaborar, de fato, um ensaio. Ao mesmo tempo, reconheço que há nesse gênero algo com que me identifico profundamente. O ensaio preserva uma liberdade rara, um certo desapego às estruturas estanques, além de permitir uma escrita que tensiona o tema, desloca perspectivas e se move com maior ousadia intelectual. No meu caso, isso se torna ainda mais significativo, já que pretendo trabalhar linguagem e memória, campos que exigem abertura reflexiva.

A proposta da professora consistiu em articular a disciplina com nossas pesquisas de tese, que posteriormente serão apresentadas aos colegas. Os colegas poderão colaborar com a discussão e com o aperfeiçoamento do texto. Podemos encarar essa proposta como um exercício duplamente fecundo. Ao mesmo tempo em que aprofunda os conteúdos da disciplina, também nos impulsiona a amadurecer nossas investigações pessoais.

Dando continuidade ao encontro, a professora lançou uma provocação que permaneceu ecoando em nós. Muitas vezes reduzimos a expressão linguística a uma mera exteriorização, como se ela servisse apenas para expor pensamentos já prontos. A frase desencadeou um turbilhão de sinapses. Isso porque aquilo que para alguns pode parecer somente palavras, para outros pode constituir um quadro inteiro de sentidos. Nesse espaço, as palavras surgem como instrumentos de elaboração do discurso e, por consequência, de aprimoramento do próprio ser humano.

Ela prosseguiu afirmando que a comunicação depende da argumentação pública. Por essa razão, falar não pode ser entendido como um jogo estritamente privado de linguagem. Ainda que cada sujeito possua uma roupagem linguística singular, essa roupagem se transforma continuamente no uso comum. Em certos momentos aparece elegante, em outros rasgada, remendada, reinventada. O contato com o espaço público modifica a linguagem e também modifica quem fala.

Num segundo momento da aula, a professora percorreu brevemente alguns marcos da tradição filosófica ligados ao problema da linguagem. Passamos por Platão (428/427 a.C.‑348/347 a.C.), Aristóteles (384 a.C.‑322 a.C.), pela Idade Média, por Agostinho de Hipona (354‑430) e Tomás de Aquino (1225‑1274). Em seguida, voltou‑se à filosofia contemporânea, realizando uma breve pausa na teoria referencialista. Nesse ponto, apresentou uma questão decisiva: devemos compreender a linguagem prioritariamente a partir do uso vivo da fala ou das estruturas gramaticais que a organizam? (mantive a interrogação, mas sem ponto e vírgula)

Chegamos à conclusão de que, embora a filosofia possa ser entendida como uma espécie de gramática dos conceitos, a fala frequentemente antecede muitas formalizações normativas. Somente depois se consolidam descrições gramaticais, morfológicas e sintáticas mais estáveis. Em outras palavras, antes de diversas regras sistematizadas existe a necessidade humana de dizer, responder, nomear e compartilhar experiências.

A partir dessa discussão, compreendemos que o significado pode emergir das práticas linguísticas historicamente constituídas. Assim, toda expressão carrega uma intenção, uma situação concreta de uso e um horizonte interpretativo. Nenhuma palavra existe em estado puro ou isolado. Toda expressão pode ser atravessada por relações históricas, sociais e políticas. Falar é sempre intervir, ainda que discretamente, no mundo compartilhado.

Diante disso, observamos também as teorias da verdade, cujo objetivo consiste em relacionar palavras e coisas. Entretanto, a aula mostrou que o significado talvez não dependa exclusivamente dessa correspondência. A intenção do falante, o contexto de enunciação e o uso efetivo da linguagem parecem desempenhar papel decisivo na comunicação humana.

Posteriormente, a professora comentou brevemente J. L. Austin (1911‑1960) e introduziu a teoria dos atos de fala. Nesse horizonte, a fala deixa de ser vista como simples veículo de informações e passa a ser compreendida como ação. Quando alguém diz “eu vos declaro marido e mulher”, algo efetivamente acontece pela força institucional da linguagem. As palavras, por assim dizer, ganham pernas e caminham no mundo.

Tive a impressão de que estudar filosofia da linguagem é investigar algo muito maior do que regras gramaticais ou definições abstratas. Trata‑se de pensar como nos constituímos por meio da linguagem, como disputamos sentidos, como recordamos, persuadimos, prometemos, criamos vínculos e transformamos realidades. Talvez por isso o ensaio, com sua liberdade crítica, pareça forma tão adequada para continuar essa reflexão. 

A chaminé estava esfriando e então, claro, precisava repor suas energias esse foi a deixar para sabermos que a aula estava acabando.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

O diabo existe?

 Por: Atualpa Ribeiro 

Muitas vezes sou interpelado, na catequese e em diversos encontros com jovens, adultos e idosos, sobre se o diabo existe. Eu sempre falo a partir de uma perspectiva lógica, inspirada no Padre Quevedo, que defendia que o diabo não tem ação sobre nós, seres humanos, tendo em vista que somos imagem e semelhança do Altíssimo e, por isso, ele não pode nos alcançar.

Eu não tenho medo de Satanás, do demônio, chame como quiser. Eu tenho medo é da crueldade que acerta o cachorro "Orelha". Eu tenho medo da perversidade com que políticos roubam e, muitas vezes, retiram a oportunidade de crianças e jovens desenvolverem suas potencialidades. Eu tenho medo da crueldade que invade o espírito humano. Aliás, quando digo isso, percebo como se ainda existisse uma força exterior que impulsionasse o ser humano a realizar essas ações. Observe como esse discurso já está tão impregnado em nosso imaginário. 

Mas, continuando, eu tenho medo desse instinto primitivo que faz com que um pai de família, ao decidir comemorar seu aniversário com um tema político, seja assassinado dentro da própria casa. Eu tenho medo da maldade com que alguém acelera o carro para passar por cima de um gatinho no meio da rua. Eu tenho medo dos mais de trinta socos que aquela moça recebeu no elevador. Eu tenho medo das ameaças constantes que arrepiam, pois a cada instante um ditador se posiciona dizendo que vai lançar bombas atômicas.

Eu tenho medo da profissional que atendeu minha esposa com frieza quando perdíamos nosso segundo filho/filha e, não bastasse a indiferença em nos atender, disse um sonoro não, que não iríamos conseguir.

Eu tenho medo da crueldade humana, que de humano não tem nada. Se eu tenho medo do diabo, sim, tenho medo do diabo que se denominou de 'Gente' e terceirizou a crueldade ao diabo, se esquivando de qualquer responsabilidade ou de forma pseudo-clínica dizem: "não leve a mal ele tem transtornos mentais". 

Por isso, não seja o capeta de estimação do seu vizinho. 


Imagens criada por IA (copilot)


domingo, 12 de abril de 2026

A teoria da significação em Aristóteles

Por: Atualpa Ribeiro 
Notas de sala de aula 2 
Disciplina: Epistemologia

O objetivo desta nota é discutir a ampliação que Aristóteles conferiu à teoria de Platão. No primeiro momento de sua filosofia, o Estagirita não se limitou a sistematizar o pensamento platônico. Ele também se voltou contra os sofistas, desmontando suas formulações retóricas e seus argumentos capciosos. Aristóteles possui uma preocupação eminentemente prática, pois percebe que a linguagem, na dimensão sofística, se torna um instrumento de poder e dominação, afastando-se da busca pela verdade. Continuaremos utilizando nas aulas de epistemologia o texto do professor Manfredo Araújo de Oliveira.

Aristóteles rompe sobretudo com a distinção rígida entre palavra e coisa, apresentando sua teoria da significação como o primeiro movimento para se distanciar de seu mestre Platão. Para o Estagirita, damos sentido à palavra ouvida porque temos conhecimento das coisas. Há nessa passagem resquícios de um certo inatismo, mas de natureza distinta do platônico, pois em Aristóteles o intelecto abstrai as formas a partir da experiência sensível. Diferentemente, para os sofistas, a linguagem é um instrumento das relações intersubjetivas. Se podemos falar de uma contribuição positiva da sofística, ela reside no fato de terem oportunizado o discurso em uma perspectiva livre e pública. Contudo, embora a sofística esteja atrelada ao poder e ao uso que as pessoas fazem da palavra como domínio das relações humanas, há nela algo que para Aristóteles se tornou inadmissível: o indiferentismo com relação à verdade.

A linguagem, na perspectiva criticada por Aristóteles, não aponta mais para as coisas, mas tende a substituir a ordem das próprias coisas. O risco, nesse sentido, é que em vez de ser apenas um sinal que remete à realidade, a linguagem acabe ocupando o lugar da realidade mesma. Começamos então a confundir o nome com a essência, o discurso com o real. Temos aí o paradoxo defendido pelos sofistas: a falta de percepção da distância entre palavra e coisa. Essa perspectiva já estava presente no Crátilo de Platão, onde se afirma que os nomes jamais substituem o ser ou são equivalentes a ele. A crítica platônica é antônima a esse posicionamento sofístico: se a linguagem for tomada como substituta da realidade, ela nos afasta da contemplação direta das Ideias. Como já foi dito em outro momento (em notas anteriores), para Platão a linguagem tem função designativa, terminando por concebê-la como algo secundário em relação ao conhecimento do real.

Já para Aristóteles, não há acesso ao ser sem mediação linguística. Quem tem a palavra tem o ser. Estabelece-se uma relação realista entre palavra e ser. A escrita faz referência à palavra falada, mas a linguagem falada não possui uma relação natural com as coisas. Para Aristóteles, os nomes são limitados, ao passo que as coisas são infinitas. Essa duplicidade exige a mediação dos estados psíquicos, ou seja, das afecções da alma. Podemos designar várias coisas com um único nome. Existe, portanto, uma diferença fundamental entre semelhança, aparência e significação. A semelhança ocorre quando algo guarda uma relação de analogia com outra coisa, como a pintura de um cavalo que se assemelha a um cavalo real. A significação, por sua vez, pertence ao domínio da linguagem: as palavras não se parecem com as coisas, mas significam aquilo que representam. O termo "cavalo" não tem semelhança física com o animal, mas o simboliza por convenção.

A linguagem, enquanto símbolo, não copia o real, mas o representa para o intelecto. Ela é um som vocal que possui uma significação convencional. Foi isso que ficou estabelecido diante das proposições discutidas pela professora Edna. E por falar em proposição, o professor Manfredo distingue o discurso em geral da proposição propriamente dita. O discurso consiste em um significante que não contém necessariamente referência à existência. Por exemplo, a expressão "abra a porta" é um discurso, uma expressão verbal que comunica algo. Temos aí o logos em sentido amplo. Já a proposição decide sobre o que é ou não é, afirmando ou negando algo sobre a realidade. Ela consiste na linguagem científica. A frase "a porta está aberta" é uma proposição, pois afirma algo que pode ser verificado como verdadeiro ou falso.

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Surge então um drama filosófico: falamos de modo geral, mas as coisas e as pessoas são singulares. Como é possível a comunicação se as palavras são universais e as coisas particulares? A resposta de Aristóteles é que na relação entre linguagem e conhecimento existe um fundamento objetivo. A unidade de significação das palavras existe porque as coisas possuem uma essência que confere unidade de sentido. Essa essência é a condição de possibilidade da comunicação humana.

Mais adiante, a professora Edna destacou a diferença entre o discurso pensado e o discurso proferido. O discurso pensado é a condição de possibilidade do conceito. O discurso proferido está na dimensão da linguagem que envolve uma área da filosofia denominada ontologia, entendida aqui como o estudo das condições de possibilidade da comunicação humana. A ontologia é o caráter obrigatório para acessarmos as coisas, tendo a linguagem como mediadora.

O professor Manfredo observa que o nominalismo é inconcebível para Aristóteles, haja vista que os conceitos não são essências independentes, mas abstrações a partir da realidade. Ele conclui o texto afirmando que Aristóteles realiza a união entre linguagem e conhecimento em quatro passos. Primeiro, conhecemos cada elemento do mundo sensível por si mesmo, independente dos outros. Segundo, destacamos o meio pelo qual conhecemos: a abstração com auxílio do instrumento lógico universalmente válido que capta a estrutura ontológica do mundo. Terceiro, designamos por meio de acordos os elementos da ordem estrutural do mundo e representamos os conteúdos por associação. Quarto, comunicamos a outros seres humanos, também por associação de símbolos, os conteúdos por nós conhecidos.

Entretanto, na história da filosofia houve quem discordasse desse ponto e carregasse todo um posicionamento cultural que afirma ser a linguagem um mero enfeite do pensamento. Exemplo disso foi René Descartes, cuja pretensão de atingir a certeza plena consistiu em um pensamento sem mediação linguística, um puro exercício da razão solitária. Somente mais tarde, no século XX, o segundo Wittgenstein irá refutar essa postura de cisão entre linguagem e conhecimento, mostrando que não há pensamento fora dos jogos de linguagem.

É importante destacarmos alguns conceitos para deixar mais claro o que pontuamos durante o texto. Ferdinand de Saussure traduziu a filosofia da linguagem em noções fundamentais. O signo é a unidade completa que resulta da união entre significante e significado. O símbolo é um sinal arbitrário que representa algo por convenção social e cultural. Por exemplo, uma cruz é o símbolo do cristianismo. O significado é o conteúdo mental, o conceito evocado na mente ao ouvirmos uma palavra. Ao ouvir "árvore", tem-se a ideia de um vegetal com tronco, galhos e folhas. O significante é a forma material do signo, seja um som, uma palavra escrita ou uma imagem acústica. A palavra "casa" com "c" é o significante. Portanto, o significante equivale à forma e o significado equivale ao conteúdo. A relação entre ambos forma o signo, que é a unidade completa.

Concluímos a aula destacando duas características patentes do conceito. A primeira é a universalidade, enquanto a percepção sensível nos dá o particular (esta árvore, aquele cavalo), o conceito nos dá o universal (árvore, cavalo), a segunda é aquilo que está impresso em nossas mentes e é reproduzido pelo intelecto, não pelos sentidos. A terceira característica é a função mediadora, que permite ao pensamento comunicar-se por meio da linguagem, já que as palavras expressam os conceitos.

 Referências

ARISTÓTELES. Da interpretação. Tradução de José Veríssimo Teixeira da Mata. São Paulo: Editora Unesp, 2013. Obra original: Περὶ Ἑρμηνείας (Peri Hermeneias), cerca de 350 a.C.

DESCARTES, René. Meditações metafísicas. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2018. Obra original: Meditationes de prima philosophia, 1641.

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta linguístico-pragmática na filosofia contemporânea. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

PLATÃO. Crátilo: ou sobre a correção dos nomes. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora UFPA, 2015. Obra original: Κρατύλος (Kratylos).

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. Organização de Charles Bally e Albert Sechehaye. Tradução, notas e posfácio de Marcos Bagno. Apresentação de Carlos Faraco. São Paulo: Parábola Editorial, 2021. Obra original: Cours de linguistique générale, 1916.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Tradução de Marcos G. Montagnoli. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. Obra original: Philosophische Untersuchungen, 1953.

Expressão linguística, Russell e Donellan

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