Por: Atualpa Ribeiro
Não sei se todos viram o que circulou nas redes sociais nos últimos dias, talvez nem tenha alcançado tanta repercussão fora da cidade. Mas o que mais me inquieta não é o alcance do fato — é o conteúdo dele. Uma professora, uma educadora, referiu-se a alguém dizendo que a pessoa “deve ter uma depressãozinha”.
Depressãozinha?
A pergunta não é retórica. Ela carrega espanto, indignação e tristeza.
Ao ser interpelada, a resposta veio rápida: “não seja tão literalista colega. Não professora estou sendo realista, estou sendo realista. A senhora está banalizando a situação”. Mas é justamente aí que o problema se aprofunda. O discurso não é neutro. Palavras não são inocentes, sobretudo quando partem de alguém que ocupa um lugar de autoridade simbólica, como o de um professor. Minimizar um transtorno mental por meio de um diminutivo não é literalismo ou que quer que seja — é banalização do sofrimento.
O que mais entristece é imaginar essa mesma fala sendo reproduzida em uma sala de aula. O que isso comunica a estudantes que enfrentam ansiedade, depressão, crises silenciosas? Que sua dor é pequena? Que não merece ser levada a sério? Que é exagero?
Mais grave ainda é a inversão de responsabilidade que se segue. Quando a fala causa desconforto, o problema passa a ser a “interpretação do outro”. Como se todos devessem compreender exatamente o que o emissor quis dizer, mesmo quando o que foi dito é impreciso, violento ou desrespeitoso. Não. A responsabilidade pela clareza, pelo cuidado e pelo impacto da palavra é de quem fala — não de quem ouve.
Não se trata de transformar alguém em vilão, mas de reconhecer que discursos produzem efeitos. Se há margem para má interpretação, se a fala gera dor, constrangimento ou exclusão, cabe a quem falou refletir, revisar e, sobretudo, pedir desculpas. Isso também é educação. Isso também é ética.
Em tempos em que tanto se fala sobre saúde mental, empatia e escuta, causa espanto que ainda se naturalize o desdém travestido de “opinião”. Educadores não podem se dar ao luxo da irresponsabilidade discursiva. A palavra que educa é a mesma que pode ferir — e por isso exige consciência.
Talvez o mais urgente não seja discutir quem entendeu errado, mas quem falou sem cuidado. Porque quando a palavra diminui a dor do outro, ela não esclarece — ela machuca.