terça-feira, 5 de maio de 2026

Bertrand Russel, Keith Donnellan e o problema 'Alexa'

 Por: Atualpa Ribeiro 
Notas de sala de aula 3 
Disciplina: Filosofia da Linguagem

Na terceira aula, refletimos sobre a filosofia da linguagem no século XX. Foi nesse momento que introduzimos o pensamento de Bertrand Russell a respeito da teoria referencial do significado. Percebemos que muitos filósofos da linguagem daquele período viveram uma tensão decisiva entre gramática, sintaxe e significado. Em grande medida, buscavam compreender de que modo as palavras se conectam ao mundo e como os signos podem representar algo para além de si mesmos.

A professora retomou uma formulação de Russell segundo a qual as palavras possuem significado no sentido de funcionarem como símbolos representativos de algo distinto delas próprias. Nessa perspectiva, o significado de uma expressão linguística estaria ligado ao seu referente, isto é, àquilo a que ela se reporta no mundo. Quando dizemos, por exemplo, que o gato está no tapete, supomos que haja um gato determinado e um tapete determinado aos quais a frase se refere.

Contudo, logo percebemos que a linguagem frequentemente complica esse esquema. Certas expressões são ambíguas porque admitem mais de um referente ou mais de um sentido. O termo *banco* pode remeter a uma instituição financeira ou a um assento. Nesse caso, a palavra isolada não basta. O contexto de uso passa a desempenhar função decisiva para determinar o significado pretendido.

O projeto de Russell buscava, em alguma medida, conferir maior clareza lógica à linguagem e mostrar que muitas proposições poderiam ser analisadas segundo suas formas de referência. Não se tratava simplesmente de afirmar que tudo o que falamos existe de modo imediato no mundo, mas de investigar como a linguagem pode ou não se comprometer com entidades, objetos e fatos.

Entretanto, surgem dificuldades relevantes. Nem toda expressão linguística parece selecionar diretamente elementos da realidade. Palavras como todavia, contudo*, *entretanto* ou *porque* não nomeiam objetos do mundo do mesmo modo que *mesa*, *casa* ou *árvore*. Elas cumprem funções relacionais, conectivas e lógicas dentro do discurso. A tradição lógica chamou muitas dessas expressões de "sincategoremáticas", indicando que seu papel depende do contexto frasal e não de uma referência isolada.

Isso nos levou a um questionamento interessante. Quando utilizamos conjunções, advérbios ou conectivos, estamos diante de referentes propriamente ditos ou diante de operadores da linguagem? A pergunta mostra que a teoria referencial explica parte importante do funcionamento linguístico, mas talvez não a totalidade dele.

Também discutimos que as palavras não se ligam às coisas de maneira óbvia e simples. Em certas perspectivas nominalistas, os nomes seriam convenções humanas, etiquetas simbólicas que utilizamos para organizar o mundo. Em leituras essencialistas, ao contrário, a linguagem expressaria algo da própria natureza das coisas. A tensão entre convenção e natureza acompanha boa parte da história da filosofia.

Nesse cenário, apareceu também o pensamento de Keith Donnellan, que desloca a discussão ao chamar atenção para o uso concreto da linguagem pelo locutor. Em sua distinção entre uso referencial e uso atributivo, Donnellan mostra que uma mesma expressão pode funcionar de modos diferentes conforme a intenção de quem fala e a situação em que se fala. Desse modo, a linguagem não é governada somente pela semântica literal nem apenas pela intenção subjetiva. O fenômeno completo envolve convenções linguísticas, contexto e ação do falante.

Essa perspectiva nos provocou ainda mais quando surgiram exemplos como 'a autora de Dom Casmurro' ou 'o atual presidente da República'. Em casos assim, a linguagem parece operar por descrições que dependem de circunstâncias históricas e sociais. Não basta olhar para a palavra isoladamente. É preciso considerar quem fala, quando fala e a que realidade compartilhada se remete.

Em meio a essas discussões, ocorreram algumas digressões que me pareceram fecundas. Pensei, por exemplo, na frase *Marte tem homens*. Dependendo da entonação e do contexto, podemos entendê-la de modos distintos. A frase pode significar que o planeta Marte seria habitado por seres humanos. Pode ainda sugerir que uma pessoa chamada Marte possui relações com homens. O exemplo mostra como a estrutura sintática, sozinha, não encerra o significado. A interpretação exige contexto, expectativas e usos possíveis.

Outra digressão nasceu de uma situação doméstica. Tenho um filho que em breve completará um ano. Depois da aula, percebi que toda vez que digo 'Alexa', ele olha ao redor, percorre os cômodos e parece procurar alguém com esse nome. No entanto, o que existe ali é um dispositivo tecnológico ativado por voz. Fiquei me perguntando o que Russell e Donnellan diriam diante desse caso.

Talvez Russell observasse que o nome 'Alexa' se refere, naquele contexto, ao aparelho ou ao sistema associado a ele. Talvez Donnellan insistisse que o mais importante seria notar o uso concreto da expressão, pois quando pronunciamos *Alexa* não estamos apenas nomeando algo, mas acionando uma prática comunicativa específica. O nome funciona como chamada, comando e referência ao mesmo tempo.

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Esses exemplos sugerem que a linguagem contemporânea desafia teorias clássicas sem necessariamente anulá-las. Em vez de considerar injustamente que tais pensadores nada responderiam, talvez seja mais correto afirmar que seus conceitos precisariam ser ampliados diante de novas formas de realidade técnica e digital.

Saímos da aula com a impressão de que a filosofia da linguagem permanece viva justamente porque a linguagem muda conosco. Novos objetos, novas tecnologias e novas práticas comunicativas recolocam antigas perguntas. O que significa referir? Como as palavras se ligam ao mundo? Em que medida falar é descrever, agir ou interpretar? Essas questões são antigas, mas continuam renovadamente atuais.

Por que cresce o debate ético quando diminuem os critérios que orientam a ação?

Por: Atualpa Ribeiro
Disciplina: Ética Normativa 
Nota de sala de aula 2

Na segunda aula de ética normativa, lemos o prefácio de Henrique Cláudio de Lima Vaz. A leitura introduziu um problema que orienta o texto. Há ampliação da produção técnica e do acúmulo de bens, ao lado de enfraquecimento dos referenciais valorativos. A pergunta que guiou a discussão foi direta. Por que cresce o debate ético quando diminuem os critérios que orientam a ação?

O texto indica que esse crescimento envolve a passagem do mundo da natureza para o mundo da cultura. Esse deslocamento amplia a capacidade humana de produzir e organizar a vida social. Ao mesmo tempo, ocorre redução do horizonte simbólico que sustenta valores. O resultado é uma tensão interna. Avanço técnico convive com instabilidade normativa.

Identificamos, então, um primeiro movimento. Liberdade humana e necessidade de normas coexistem. O ser humano cria formas culturais, institui práticas e redefine padrões. Essa criação, contudo, não pode ocorrer sem critérios. Sem algum tipo de orientação comum, a ação perde direção e a convivência se fragiliza. A liberdade exige parâmetros que a tornem exercitável no espaço coletivo.


Imagem produzida por IA (copilot).

O segundo movimento explicita uma exigência do processo cultural. Não se trata de lei jurídica. Trata-se de uma condição de inteligibilidade da cultura. Toda criação humana requer algum grau de ordenação. Quando essa exigência é ignorada, as práticas se dispersam e os critérios de avaliação se tornam instáveis.

O terceiro movimento introduz o conceito de ethos. Entendemos ethos como o conjunto de valores, disposições e normas que organizam uma forma de vida. A cultura não permanece no nível da invenção isolada. Ela se estabiliza em padrões compartilhados. Esses padrões orientam decisões e permitem continuidade social.

O quarto movimento decorre desse ponto. Se a cultura se organiza como ethos, torna-se necessária uma ordenação normativa mais explícita. O ser humano precisa avaliar o que considera bem e definir a direção de suas ações. Sem esse referencial, a cultura perde coerência interna e capacidade de orientar condutas.

O quinto movimento aborda a autorrealização humana. O texto sugere uma exigência ligada à própria condição do ser humano. A cultura não se justifica por resultados imediatos. Ela está vinculada à possibilidade de realização humana. A questão ética, portanto, envolve a definição do que conta como realização.

Na fundamentação ética, o texto remete à tradição aristotélica, na qual a ação se orienta por um fim e por uma concepção de bem. Retoma também a ideia de vida boa como critério de avaliação. Em paralelo, apresenta crítica ao relativismo radical, entendido como posição que elimina critérios de avaliação entre valores.

Nesse ponto, Lima Vaz associa relativismo e hedonismo a padrões de comportamento presentes na globalização. A crítica não recai sobre a diversidade cultural. O alvo é a ausência de critérios que permitam julgar práticas e orientar escolhas.O prefácio menciona ainda Georg Wilhelm Friedrich Hegel, ao tratar da reinscrição constante da reflexão filosófica no conceito. Há também referência a Socrates, apresentado como ponto inicial da reflexão sistemática sobre a conduta humana.

Ao final da aula, formulamos uma questão que permanece aberta. Como sustentar a liberdade sem abandonar critérios normativos que tornem possível a vida em comum? A ética aparece, assim, como resposta a uma tensão real entre criação humana e necessidade de orientação.

Referência

 VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Introdução à ética filosófica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Expressão linguística, Russell e Donellan

 Por: Atualpa Ribeiro 
Notas de sala de aula 1, 2 
Disciplina: Filosofia da Linguagem

Vamos para mais uma nota de sala de aula. Desta vez tentaremos condensar dois encontros neste texto, haja vista que a professora doutora Tamires Dal Magro, titular da disciplina, iniciou a aula retomando discussões anteriores. O objetivo era rememorar o que havíamos debatido acerca da expressão linguística, da teoria referencial do significado em Bertrand Russell (1872‑1970) e dos desdobramentos posteriores presentes em Keith Donnellan (1931‑2015).

Num primeiro momento, fiquei impressionado, e ainda estou, com a dedicação ao estudo que a professora Tamires demonstra. Aparentemente ela é mais jovem que muitos dos estudantes presentes em sala e, ainda assim, possui cinco pós‑doutorados, todos ligados à filosofia da matemática, tendo realizado trajetórias acadêmicas que atravessaram de Santa Catarina à Bahia. Considero admirável essa verve acadêmica que não tergiversa diante da pesquisa séria. Realmente, são poucas as pessoas que conhecemos cuja vida parece tão inteiramente dedicada ao estudo rigoroso.

Na primeira aula, foi apresentado o itinerário da disciplina, isto é, os autores centrais e a metodologia que adotaríamos no processo avaliativo. Entre os nomes destacados aparecem William Lycan (1945‑), com uma apresentação sistemática do problema do significado, John Dewey (1859‑1952), com a concepção pragmatista da linguagem como prática, H. P. Grice (1913‑1988), com a teoria da implicatura e Susan Stebbing (1885‑1943), cuja defesa da clareza dos conceitos e da responsabilidade intelectual no uso público da linguagem permanece atual. Esse autores destacam o percurso em caminhos distintos, investigam o que significa falar, compreender e agir linguisticamente.

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Em seguida a professora informou que o ensaio será uma das formas de avaliação da disciplina. Confesso que a notícia me atravessou com certa angústia, pois, na maior parte das vezes em que escrevi, permaneci nas malhas rígidas do artigo científico. Agora retorno ao desafio de elaborar, de fato, um ensaio. Ao mesmo tempo, reconheço que há nesse gênero algo com que me identifico profundamente. O ensaio preserva uma liberdade rara, um certo desapego às estruturas estanques, além de permitir uma escrita que tensiona o tema, desloca perspectivas e se move com maior ousadia intelectual. No meu caso, isso se torna ainda mais significativo, já que pretendo trabalhar linguagem e memória, campos que exigem abertura reflexiva.

A proposta da professora consistiu em articular a disciplina com nossas pesquisas de tese, que posteriormente serão apresentadas aos colegas. Os colegas poderão colaborar com a discussão e com o aperfeiçoamento do texto. Podemos encarar essa proposta como um exercício duplamente fecundo. Ao mesmo tempo em que aprofunda os conteúdos da disciplina, também nos impulsiona a amadurecer nossas investigações pessoais.

Dando continuidade ao encontro, a professora lançou uma provocação que permaneceu ecoando em nós. Muitas vezes reduzimos a expressão linguística a uma mera exteriorização, como se ela servisse como uma vitrine para expor pensamentos já prontos. A frase desencadeou um turbilhão de sinapses. Isso porque aquilo que para alguns pode parecer um conjunto de palavras, para outros pode constituir um quadro inteiro de sentidos. Nesse espaço, as palavras surgem como instrumentos de elaboração do discurso e, por consequência, de aprimoramento do próprio ser humano.

Ela prosseguiu afirmando que a comunicação depende da argumentação pública. Por essa razão, falar não pode ser entendido como um jogo estritamente privado de linguagem. Ainda que cada sujeito possua uma roupagem linguística singular, essa roupagem se transforma continuamente no uso comum. Em certos momentos aparece elegante, em outros rasgada, remendada, reinventada. O contato com o espaço público modifica a linguagem e também modifica quem fala.

Num segundo momento da aula, a professora percorreu brevemente alguns marcos da tradição filosófica ligados ao problema da linguagem, não de forma explicita, mas pude perceber esse caminho. Passamos por Platão (428/427 a.C.‑348/347 a.C.), Aristóteles (384 a.C.‑322 a.C.), pela Idade Média, por Agostinho de Hipona (354‑430) e Tomás de Aquino (1225‑1274). Em seguida, voltou‑se à filosofia contemporânea, realizando uma breve pausa na teoria referencialista. Nesse ponto, apresentou uma questão decisiva: devemos compreender a linguagem prioritariamente a partir do uso vivo da fala ou das estruturas gramaticais que a organizam?

Essa provocação foi seguida da célebre afirmação de Humpty Dumpty em Alice Através do Espelho - “quando uso uma palavra, ela significa exatamente o que eu quero que signifique, nem mais nem menos” - além de operar como recurso lúdico, se expõe como um experimento conceitual que antecipa uma das tensões centrais da filosofia da linguagem. Fiz algumas anotações com relação à linguagem, fiquei com receio de falar e acabar viajando. Vamos lá: enquanto a figura literária sugere a possibilidade de um sentido soberano e privado, a tradição pragmática e analítica demonstra que a linguagem não se submete a decretos individuais, mas se constitui no uso compartilhado, nos jogos de linguagem e nas formas de vida coletivas. A performatividade das palavras não emana do arbítrio solitário, mas da disputa pública por legitimidade, onde nomear, testemunhar e redescrever são atos que só adquirem força na tessitura social. É por isso que a memória político-cultural não se cristaliza por imposição unilateral, à maneira do Ovo Quebrado, ela emerge, circula e se transforma nas práticas linguísticas partilhadas, onde o poder de rearticular o passado reside menos no domínio privado da fala e mais na capacidade de reconectar vocabulários a horizontes comuns de sentido e ação.

Chegamos à conclusão de que, embora a filosofia possa ser entendida como uma espécie de gramática dos conceitos, a fala frequentemente antecede muitas formalizações normativas. Somente depois se consolidam descrições gramaticais, morfológicas e sintáticas mais estáveis. Em outras palavras, antes de diversas regras sistematizadas existe a necessidade humana de dizer, responder, nomear e compartilhar experiências.

A partir dessa discussão, compreendemos que o significado pode emergir das práticas linguísticas historicamente constituídas. Assim, toda expressão carrega uma intenção, uma situação concreta de uso e um horizonte interpretativo. Nenhuma palavra existe em estado puro ou isolado. Toda expressão pode ser atravessada por relações históricas, sociais e políticas. Falar é sempre intervir, ainda que discretamente, no mundo compartilhado.

Diante disso, observamos também as teorias da verdade, cujo objetivo consiste em relacionar palavras e coisas. Entretanto, a aula mostrou que o significado talvez não dependa exclusivamente dessa correspondência. A crítica de Donellan a Russell apareceu nesse momento, haja vista que o autor leva em consideração os efeitos do locutor, a intenção do falante, o contexto de enunciação e o uso efetivo da linguagem parecem desempenhar papel decisivo na comunicação humana.

Posteriormente, a professora comentou brevemente J. L. Austin (1911‑1960) e introduziu a teoria dos atos de fala. Nesse horizonte, a fala deixa de ser vista como simples veículo de informações e passa a ser compreendida como ação. Quando alguém diz “eu vos declaro marido e mulher”, algo efetivamente acontece pela força institucional da linguagem. As palavras, por assim dizer, ganham pernas e desfilam, no mundo, em muitos casos são apalpadas, sofrem atentados, mas sempre dizem algo.

Tive a impressão de que estudar filosofia da linguagem é investigar algo muito maior do que regras gramaticais ou definições abstratas. Trata‑se de pensar como nos constituímos por meio da linguagem, como disputamos sentidos, como recordamos, persuadimos, prometemos, criamos vínculos e transformamos realidades. Talvez por isso o ensaio, com sua liberdade crítica, pareça forma tão adequada para continuar essa reflexão. 

A chaminé estava esfriando e então, claro, precisava repor suas energias esse foi a deixar para sabermos que a aula estava acabando.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

O diabo existe?

 Por: Atualpa Ribeiro 

Muitas vezes sou interpelado, na catequese e em diversos encontros com jovens, adultos e idosos, sobre se o diabo existe. Eu sempre falo a partir de uma perspectiva lógica, inspirada no Padre Quevedo, que defendia que o diabo não tem ação sobre nós, seres humanos, tendo em vista que somos imagem e semelhança do Altíssimo e, por isso, ele não pode nos alcançar.

Eu não tenho medo de Satanás, do demônio, chame como quiser. Eu tenho medo é da crueldade que acerta o cachorro "Orelha". Eu tenho medo da perversidade com que políticos roubam e, muitas vezes, retiram a oportunidade de crianças e jovens desenvolverem suas potencialidades. Eu tenho medo da crueldade que invade o espírito humano. Aliás, quando digo isso, percebo como se ainda existisse uma força exterior que impulsionasse o ser humano a realizar essas ações. Observe como esse discurso já está tão impregnado em nosso imaginário. 

Mas, continuando, eu tenho medo desse instinto primitivo que faz com que um pai de família, ao decidir comemorar seu aniversário com um tema político, seja assassinado dentro da própria casa. Eu tenho medo da maldade com que alguém acelera o carro para passar por cima de um gatinho no meio da rua. Eu tenho medo dos mais de trinta socos que aquela moça recebeu no elevador. Eu tenho medo das ameaças constantes que arrepiam, pois a cada instante um ditador se posiciona dizendo que vai lançar bombas atômicas.

Eu tenho medo da profissional que atendeu minha esposa com frieza quando perdíamos nosso segundo filho/filha e, não bastasse a indiferença em nos atender, disse um sonoro não, que não iríamos conseguir.

Eu tenho medo da crueldade humana, que de humano não tem nada. Se eu tenho medo do diabo, sim, tenho medo do diabo que se denominou de 'Gente' e terceirizou a crueldade ao diabo, se esquivando de qualquer responsabilidade ou de forma pseudo-clínica dizem: "não leve a mal ele tem transtornos mentais". 

Por isso, não seja o capeta de estimação do seu vizinho. 


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domingo, 12 de abril de 2026

A teoria da significação em Aristóteles

Por: Atualpa Ribeiro 
Notas de sala de aula 2 
Disciplina: Epistemologia

O objetivo desta nota é discutir a ampliação que Aristóteles conferiu à teoria de Platão. No primeiro momento de sua filosofia, o Estagirita não se limitou a sistematizar o pensamento platônico. Ele também se voltou contra os sofistas, desmontando suas formulações retóricas e seus argumentos capciosos. Aristóteles possui uma preocupação eminentemente prática, pois percebe que a linguagem, na dimensão sofística, se torna um instrumento de poder e dominação, afastando-se da busca pela verdade. Continuaremos utilizando nas aulas de epistemologia o texto do professor Manfredo Araújo de Oliveira.

Aristóteles rompe sobretudo com a distinção rígida entre palavra e coisa, apresentando sua teoria da significação como o primeiro movimento para se distanciar de seu mestre Platão. Para o Estagirita, damos sentido à palavra ouvida porque temos conhecimento das coisas. Há nessa passagem resquícios de um certo inatismo, mas de natureza distinta do platônico, pois em Aristóteles o intelecto abstrai as formas a partir da experiência sensível. Diferentemente, para os sofistas, a linguagem é um instrumento das relações intersubjetivas. Se podemos falar de uma contribuição positiva da sofística, ela reside no fato de terem oportunizado o discurso em uma perspectiva livre e pública. Contudo, embora a sofística esteja atrelada ao poder e ao uso que as pessoas fazem da palavra como domínio das relações humanas, há nela algo que para Aristóteles se tornou inadmissível: o indiferentismo com relação à verdade.

A linguagem, na perspectiva criticada por Aristóteles, não aponta mais para as coisas, mas tende a substituir a ordem das próprias coisas. O risco, nesse sentido, é que em vez de ser apenas um sinal que remete à realidade, a linguagem acabe ocupando o lugar da realidade mesma. Começamos então a confundir o nome com a essência, o discurso com o real. Temos aí o paradoxo defendido pelos sofistas: a falta de percepção da distância entre palavra e coisa. Essa perspectiva já estava presente no Crátilo de Platão, onde se afirma que os nomes jamais substituem o ser ou são equivalentes a ele. A crítica platônica é antônima a esse posicionamento sofístico: se a linguagem for tomada como substituta da realidade, ela nos afasta da contemplação direta das Ideias. Como já foi dito em outro momento (em notas anteriores), para Platão a linguagem tem função designativa, terminando por concebê-la como algo secundário em relação ao conhecimento do real.

Já para Aristóteles, não há acesso ao ser sem mediação linguística. Quem tem a palavra tem o ser. Estabelece-se uma relação realista entre palavra e ser. A escrita faz referência à palavra falada, mas a linguagem falada não possui uma relação natural com as coisas. Para Aristóteles, os nomes são limitados, ao passo que as coisas são infinitas. Essa duplicidade exige a mediação dos estados psíquicos, ou seja, das afecções da alma. Podemos designar várias coisas com um único nome. Existe, portanto, uma diferença fundamental entre semelhança, aparência e significação. A semelhança ocorre quando algo guarda uma relação de analogia com outra coisa, como a pintura de um cavalo que se assemelha a um cavalo real. A significação, por sua vez, pertence ao domínio da linguagem: as palavras não se parecem com as coisas, mas significam aquilo que representam. O termo "cavalo" não tem semelhança física com o animal, mas o simboliza por convenção.

A linguagem, enquanto símbolo, não copia o real, mas o representa para o intelecto. Ela é um som vocal que possui uma significação convencional. Foi isso que ficou estabelecido diante das proposições discutidas pela professora Edna. E por falar em proposição, o professor Manfredo distingue o discurso em geral da proposição propriamente dita. O discurso consiste em um significante que não contém necessariamente referência à existência. Por exemplo, a expressão "abra a porta" é um discurso, uma expressão verbal que comunica algo. Temos aí o logos em sentido amplo. Já a proposição decide sobre o que é ou não é, afirmando ou negando algo sobre a realidade. Ela consiste na linguagem científica. A frase "a porta está aberta" é uma proposição, pois afirma algo que pode ser verificado como verdadeiro ou falso.

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Surge então um drama filosófico: falamos de modo geral, mas as coisas e as pessoas são singulares. Como é possível a comunicação se as palavras são universais e as coisas particulares? A resposta de Aristóteles é que na relação entre linguagem e conhecimento existe um fundamento objetivo. A unidade de significação das palavras existe porque as coisas possuem uma essência que confere unidade de sentido. Essa essência é a condição de possibilidade da comunicação humana.

Mais adiante, a professora Edna destacou a diferença entre o discurso pensado e o discurso proferido. O discurso pensado é a condição de possibilidade do conceito. O discurso proferido está na dimensão da linguagem que envolve uma área da filosofia denominada ontologia, entendida aqui como o estudo das condições de possibilidade da comunicação humana. A ontologia é o caráter obrigatório para acessarmos as coisas, tendo a linguagem como mediadora.

O professor Manfredo observa que o nominalismo é inconcebível para Aristóteles, haja vista que os conceitos não são essências independentes, mas abstrações a partir da realidade. Ele conclui o texto afirmando que Aristóteles realiza a união entre linguagem e conhecimento em quatro passos. Primeiro, conhecemos cada elemento do mundo sensível por si mesmo, independente dos outros. Segundo, destacamos o meio pelo qual conhecemos: a abstração com auxílio do instrumento lógico universalmente válido que capta a estrutura ontológica do mundo. Terceiro, designamos por meio de acordos os elementos da ordem estrutural do mundo e representamos os conteúdos por associação. Quarto, comunicamos a outros seres humanos, também por associação de símbolos, os conteúdos por nós conhecidos.

Entretanto, na história da filosofia houve quem discordasse desse ponto e carregasse todo um posicionamento cultural que afirma ser a linguagem um mero enfeite do pensamento. Exemplo disso foi René Descartes, cuja pretensão de atingir a certeza plena consistiu em um pensamento sem mediação linguística, um puro exercício da razão solitária. Somente mais tarde, no século XX, o segundo Wittgenstein irá refutar essa postura de cisão entre linguagem e conhecimento, mostrando que não há pensamento fora dos jogos de linguagem.

É importante destacarmos alguns conceitos para deixar mais claro o que pontuamos durante o texto. Ferdinand de Saussure traduziu a filosofia da linguagem em noções fundamentais. O signo é a unidade completa que resulta da união entre significante e significado. O símbolo é um sinal arbitrário que representa algo por convenção social e cultural. Por exemplo, uma cruz é o símbolo do cristianismo. O significado é o conteúdo mental, o conceito evocado na mente ao ouvirmos uma palavra. Ao ouvir "árvore", tem-se a ideia de um vegetal com tronco, galhos e folhas. O significante é a forma material do signo, seja um som, uma palavra escrita ou uma imagem acústica. A palavra "casa" com "c" é o significante. Portanto, o significante equivale à forma e o significado equivale ao conteúdo. A relação entre ambos forma o signo, que é a unidade completa.

Concluímos a aula destacando duas características patentes do conceito. A primeira é a universalidade, enquanto a percepção sensível nos dá o particular (esta árvore, aquele cavalo), o conceito nos dá o universal (árvore, cavalo), a segunda é aquilo que está impresso em nossas mentes e é reproduzido pelo intelecto, não pelos sentidos. A terceira característica é a função mediadora, que permite ao pensamento comunicar-se por meio da linguagem, já que as palavras expressam os conceitos.

 Referências

ARISTÓTELES. Da interpretação. Tradução de José Veríssimo Teixeira da Mata. São Paulo: Editora Unesp, 2013. Obra original: Περὶ Ἑρμηνείας (Peri Hermeneias), cerca de 350 a.C.

DESCARTES, René. Meditações metafísicas. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2018. Obra original: Meditationes de prima philosophia, 1641.

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta linguístico-pragmática na filosofia contemporânea. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

PLATÃO. Crátilo: ou sobre a correção dos nomes. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora UFPA, 2015. Obra original: Κρατύλος (Kratylos).

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. Organização de Charles Bally e Albert Sechehaye. Tradução, notas e posfácio de Marcos Bagno. Apresentação de Carlos Faraco. São Paulo: Parábola Editorial, 2021. Obra original: Cours de linguistique générale, 1916.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Tradução de Marcos G. Montagnoli. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. Obra original: Philosophische Untersuchungen, 1953.

sábado, 11 de abril de 2026

Platão: linguagem como instrumento

Por: Atualpa Ribeiro 
Notas de sala de aula 1 
Disciplina: Epistemologia

Iniciamos a disciplina de Epistemologia sob a condução da professora Edna Magalhães. Sua forma de lecionar mantém vínculos com a didática tradicional, mas seria um equívoco interpretarmos esse "tradicional" como sinônimo de um espírito enciclopédico no qual o discente absorve passivamente os preceitos ditados pelo docente. A professora Edna nos estimula a concatenar as ideias antes de externarmos qualquer discurso, exigindo uma organização interna do pensamento que antecede a fala.

Meu primeiro movimento intelectual na aula foi uma tentativa de crítica à postura de certos epistemólogos que considero reféns do sistema hegeliano. A professora Edna, devo registrar, não se enquadra nessa categoria. Minha crítica se dirigia ao que chamei de epistemicídio provocado desde Platão até a crise do século XX.

A professora, nesse momento, apresentava a disciplina discutindo o "mito do dado", formulado pelo filósofo americano Wilfrid Sellars. Trata-se da crítica à ideia de que haveria um dado sensorial bruto e imediato capaz de fundamentar o conhecimento empírico sem qualquer mediação inferencial. Sellars argumenta que mesmo a percepção mais elementar já está carregada de conceitos e linguagem, não havendo esse acesso puro e direto ao real. É nesse sentido que, para um grupo seleto de pensadores, o conhecimento não se origina exclusivamente da sensibilidade, mas envolve uma complexa rede de justificações que ultrapassa o simples contato com o mundo sensível.

Diante disso, conversamos e chegamos à conclusão de que a mente é, em grande medida, fruto do que a sociedade produz. A professora, como uma boa pragmatista, comentou o pensamento de Richard Rorty. Para Rorty, tudo o que pensamos deriva da cultura e de nossas experiências contingentes. Rorty se insere na tradição pragmatista iniciada por Charles Sanders Peirce, embora dele se distancie em pontos fundamentais. Enquanto Peirce sustentava que a verdade seria a opinião destinada a ser aceita por todos os investigadores no limite ideal de uma investigação científica, Rorty abandona completamente essa noção de convergência final. Para o neopragmatista, o conhecimento não é um espelhamento fiel da realidade, mas uma ferramenta para lidarmos com o mundo, sempre circunscrita a vocabulários contingentes e historicamente situados.

Fiz um questionamento sobre a razão de ainda estudarmos Platão em um doutorado em filosofia contemporânea. A professora me respondeu prontamente que a universidade possui uma "obrigatoriedade conceitual", isto é, precisa contemplar a formação do pensamento desde suas raízes, ainda que para criticá-las. Nesse sentido, ela nos situou diante das três grandes matrizes teóricas da epistemologia: as teorias fundacionistas, as coerentistas e as infinitistas, sem esquecer das posições convencionalistas.

A partir desse momento, debruçamo-nos sobre o diálogo Crátilo, de Platão. A professora nos expôs o contexto geral da obra e as três formas como Platão concebe a linguagem: como remédio, como veneno ou como cosmético. Como remédio, a linguagem possui um efeito construtivo, capaz de organizar o pensamento. Como veneno, ela carrega a tensão do conflito e da manipulação, fenômeno que hoje associamos às fake news. Como cosmético, a linguagem cria uma máscara, seja por meio da propaganda ou de discursos políticos vazios que adornam a realidade sem revelá-la.

Mas voltemos ao cerne do problema da disciplina. A pergunta norteadora da aula foi: quem deu nome a todas as coisas? Eu brinquei dizendo que foi Adão a mando de Deus.

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A discussão entre Crátilo e Hermógenes começa com um atrito fundamental. Para Crátilo, as coisas recebem o nome de acordo com suas formas essenciais. Daí provém o substantivo como algo derivado da substância. Para Hermógenes, porém, os nomes não possuem relação com as formas, sendo estabelecidos apenas por convenções sociais. Platão, defensor e fundador da teoria idealista, reconhece que existem coisas inferiores na dimensão sensível, as quais convergem, em seu aspecto superior, para o inteligível. Para continuarmos falando sobre a similaridade entre nomes e coisas, precisamos antes compreender o que significa filosofar para Platão. A resposta é simples: filosofar consiste na busca de um saber ordenado sobre algo. Falar, portanto, não é simplesmente proferir palavras soltas, mas externar um discurso concatenado e ordenado que faça sentido.

O texto que servirá de base para o segundo momento da aula é extraído do livro Reviravolta Linguístico-Pragmática na Filosofia Contemporânea, do professor Manfredo Araújo de Oliveira, da Universidade Federal do Ceará. A pergunta que se impõe a partir dessa leitura consiste em saber de onde provém a significação. Existe uma relação arbitrária entre objeto e nome? Platão advoga o naturalismo ou o convencionalismo? Temos uma forma natural para a linguagem? Uma coisa ficou clara na exposição: para Platão, a linguagem exige um sistema e uma organização. Ela não é algo amorfo. Exige uma correspondência fundamental entre a estrutura gramatical e a estrutura ontológica. Em outras palavras, a linguagem não é uma construção inteiramente arbitrária.

Como já era previsível, Platão considera a linguagem um instrumento. Ela não é algo externo à razão. Para Platão, existem dois processos distintos: primeiro nós pensamos e, em seguida, a linguagem realiza suas operações de designação. O idealismo platônico considera, portanto, a linguagem como um instrumento de promoção da verdade. O esquema é o seguinte: o pensamento equivale ao conceito da coisa em si; existe uma representação que equivale à correspondência, a qual se encaminha para um objeto no mundo. Desse modo, Platão não é estritamente naturalista nem estritamente convencionalista.

É importante notar que Platão oscila entre essas duas visões. Ele reconhece que há uma dimensão natural no nome, que deve refletir de algum modo a realidade, mas também admite que a linguagem é construída por convenção e pode ser imperfeita. Platão rejeita tanto o naturalismo puro, pois não há evidência de que os sons das palavras possuam uma essência universal correspondente às coisas, quanto o convencionalismo absoluto, que reduz a linguagem a um mero acordo humano ignorando sua capacidade de revelar verdades mais profundas. No entanto, é crucial observar que a posição defendida por Sócrates no diálogo não é a de Crátilo. Este sustentava que quem conhece os nomes conhece também as coisas. Sócrates refuta essa tese ao final do diálogo, mostrando que se os nomes fossem a única via de acesso ao real estaríamos condenados à imperfeição do legislador que os instituiu. Conhecer as coisas exige, para Platão, voltar-se diretamente às Ideias, o que revela seu antagonismo em dominar a nomenclatura que as designa.

A professora Edna pontuou mais uma vez que Platão realiza uma apologia da teoria instrumentalista da linguagem. Existe uma separação entre palavras e coisas. Platão define a linguagem como um funcionamento, como um objeto que serve de caminho para o conhecimento. Contudo, sua estrutura deixa em aberto uma questão crucial: até que ponto a linguagem pode realmente alcançar a essência das coisas ou será ela sempre uma mediação imperfeita entre o pensamento e a realidade?

No terceiro momento da aula, surgiu um questionamento sobre a definição de crença. A professora estabeleceu então a distinção entre crença, conhecimento e verdade. No âmbito da crença, existe a possibilidade de termos uma crença falsa. No âmbito do conhecimento, exige-se uma crença verdadeira. Unindo crença e verdade, temos o conhecimento entendido como crença verdadeira justificada. Esse argumento atravessa a linguagem que para Platão, a opinião verdadeira sem explicação racional não constitui conhecimento genuíno.

Veio à baila, então, René Descartes com sua hipótese radical: e se a vida fosse um sonho? Enquanto dormimos, tudo o que acontece no sonho nos parece real, por mais absurdo que seja. Ao acordarmos, percebemos a equiparação entre crença e verdade: a crença deve corresponder a um fato, e esse fato deve ser justificado. O conhecimento, portanto, trafega entre três aspectos: verdade, juízo e crença.

Em conversas paralelas após a aula, utilizei o exemplo da força gravitacional. No final do século XVI, Galileu Galilei sustentava a convicção teórica de que a massa não afeta a aceleração da gravidade. Seu raciocínio, amparado mais em experimentos mentais do que em comprovações empíricas, sustentava que ao lançar corpos de pesos diferentes eles chegariam ao solo simultaneamente, descontada a resistência do ar. A crença de Galileu não podia ser empiricamente justificada com os recursos técnicos de sua época, mas era sustentada por uma arquitetura racional e matemática. Essa crença foi confirmada apenas séculos depois, quando o astronauta David Scott, na missão Apollo 15, deixou cair simultaneamente um martelo de um quilo e uma pena de trinta gramas na superfície lunar, onde a resistência do ar é nula. Ambos tocaram o solo juntos. A crença que Galileu possuía tornou-se verdadeira e foi finalmente justificada, correspondendo a um fato. Contudo, na época de Galileu, tratava-se de uma crença verdadeira ainda carente de justificação empírica plena, o que nos mostra como a tríade crença, verdade e justificação nem sempre caminha junta na história do pensamento.

O professor Manfredo Araújo de Oliveira conclui o texto dizendo que, assim como existe um carpinteiro para a construção de uma mesa, existe para Platão um criador de palavras. Platão advoga a existência das coisas em si. A linguagem é um instrumento, não o motor do conhecimento. Anos depois, o pensador moderno Leibniz, em seu projeto racionalista de uma Characteristica Universalis, daria continuidade a essa busca por uma linguagem que espelhasse a estrutura do real. Leibniz propôs a criação de um alfabeto universal de símbolos, um sistema que contemplasse o real independentemente de suas contingências, uma linguagem universalizante capaz de eliminar as ambiguidades e os equívocos da comunicação humana.

O que penso sobre Platão, Leibniz e todos os idealistas que construíram conhecimento sobre bases que considero problemáticas ficará para as próximas notas de aula.

Referências

GOLDING, William. Senhor das moscas. Tradução de Sérgio Flaksman. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014. Obra original: Lord of the Flies, 1954.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007. Obra original: Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, 1785.

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta linguístico-pragmática na filosofia contemporânea. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. Tradução de José Teixeira Coelho Netto. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010. (Coleção Estudos). Coletânea de textos organizada postumamente.

PLATÃO. Crátilo: ou sobre a correção dos nomes. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora UFPA, 2015. Obra original: Κρατύλος (Kratylos).

RORTY, Richard. A filosofia e o espelho da natureza. Tradução de Jorge Pires. Lisboa: Dom Quixote, 1988. Obra original: Philosophy and the Mirror of Nature, 1979.

SELLARS, Wilfrid. Empirismo e filosofia da mente. Tradução de Sofia Helena Gollnick Ferreira. Petrópolis: Vozes, 2008. (Coleção Epistemologia). Obra original: Empiricism and the Philosophy of Mind, 1956.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Dilemas éticos: Caso Bebê Tereza

Por: Atualpa Ribeiro
Notas de sala de aula 1
Disciplina: Ética Normativa

Estou cursando a disciplina de Ética Normativa, ministrada pelo professor José Elielton. Já estamos na quarta aula, e devo registrar, desde já, a invejável elasticidade intelectual com que ele conduz as discussões. Não bastasse a atualidade cortante dos temas que repercute em sala, há ainda um tom jocoso na abordagem das teorias eticistas, um humor fino, nunca desrespeitoso, que torna o ambiente leve e, ao mesmo tempo, profundamente edificante. É como se o riso desarmasse as defesas retóricas e nos obrigasse a pensar de fato.

O professor iniciou a disciplina situando o que chamou de “tema gerador da filosofia”: a ética. Em sua perspectiva, o objeto da ética não é o sujeito isolado em sua torre de marfim, mas as relações humanas, o eu diante dos outros, o eu com os outros. Em uma democracia, acrescentou, é necessário dispor de um mínimo ético que oriente a convivência. Imediatamente lembrei-me da pensadora espanhola Adela Cortina e de sua defesa de uma ética mínima para as sociedades pluralistas, uma ressonância que o professor não citou, mas que soou perfeita aos meus ouvidos.

Logo em seguida, veio a primeira provocação, daquelas que nos tiram o chão: “As facções criminosas, PCC, Comando Vermelho, têm ética?” A pergunta desdobrou-se em outras: Qual a diferença entre moralidade e moralismo? Que critérios utilizamos para decidir entre o certo e o errado?

Ficou claro que, se não observamos os contextos de decisão, caímos num vazio. É preciso, portanto, um coerentismo mínimo: uma exigência de que exista alguma congruência no processo de escolha, uma justificativa para a mudança de postura. Sim, grupos criminosos e organizações terroristas possuem códigos de conduta, isso é fato. O que nos levou a segunda indagação: a moralidade consiste em um conjunto de costumes, influências familiares, religiosas, midiáticas que carregamos e que informam nossos juízos cotidianos. Outra coisa, bem distinta, é o moralismo: uma patologia, uma rigidez que julga sem compreender, uma aplicação cega de normas sem a mediação da reflexão crítica.

O professor então nos fez notar um incômodo: o uso de máscaras sociais. Dependendo da plateia, se conservadora, se composta por colegas ou por estranhos, nós recuamos, deixamos de expressar o posicionamento que de fato gostaríamos de adotar. Eu mesmo experimentei isso na pele durante a aula.

A discussão avançou para a relação entre tecnologia e poder de decisão. Quanto mais a técnica amplia nosso domínio sobre as circunstâncias, mais nos vemos confrontados por dilemas antes impensáveis. Foi nesse ponto que veio à tona o Caso Bebê Tereza e, também, os casos de gestações em que se descobre, tardiamente, uma severa má-formação fetal.

O professor discorreu sobre o ocorrido na Flórida, em 1998. O Caso Bebê Tereza: um feto anencefálico, que certamente não sobreviveria por mais do que alguns dias, ou horas, após o parto, mas cujos órgãos poderiam salvar a vida de outras cinco crianças. A corte da Flórida, no entanto, determinou que a gestação deveria ser levada a termo, mesmo sabendo que o bebê morreria logo em seguida. A comoção pública foi imensa, pois estava em jogo o sacrifício de uma vida inviável para salvar cinco vidas viáveis.

Ao discutirmos o caso, busquei ser incisivo em minha postura. Adotei uma posição claramente consequencialista. Em linhas gerais, o consequencialismo preza pela maximização do bem-estar geral: fazer o “mal mínimo” para beneficiar o maior número de pessoas, ainda que isso implique algum sofrimento individual. Durante minha explanação, afirmei que “concordava com os pais” da criança. Foi aí que o professor me fez enxergar um movimento interno sutil, mas revelador.

Ele observou que minha fala foi uma espécie de autocensura. Em momento algum eu disse: “Eu mataria a criança.” Preferi a construção indireta: “Concordo com o posicionamento dos pais.” Ao esquivar-me do termo “matar”, eu não apenas suavizava a crueza do ato, eu me protegia do julgamento alheio. O que os outros pensariam de mim se eu usasse a palavra exata? A pergunta silenciosa que me atravessou foi: “Que rótulo me dariam?”

A discussão prosseguiu, e, como há vários estudantes de Direito na turma, foi inevitável traçar a distinção entre Ética e Direito. A Ética carrega uma carga discursiva que implica religião, família, pátria, enfim, o uso público da linguagem e da razão em contextos não necessariamente coercitivos. Já o Direito pressupõe uma carga positiva, um sistema de regras e normas com força vinculante dentro de um ordenamento jurídico.

Retomamos, então, a questão do coerentismo mínimo nas relações éticas. Exige-se que qualquer mudança de postura seja acompanhada de uma justificativa razoável, do contrário, a convivência democrática se dissolve em oportunismo. Para entender esse pano de fundo, o professor recorreu ao processo de desvinculação entre Ética e Moral operado por Immanuel Kant.

Antes de Kant, para os clássicos e medievais, indivíduo e sociedade estavam unidos por um télos, uma finalidade comum a ser atingida. O homem não se compreendia fora da pólis ou da civitas Dei. Com a modernidade kantiana, e de modo ainda mais agudo na contemporaneidade, houve uma separação radical. A Ética passou a ser o âmbito dos valores privados, da autonomia da vontade. Já a Política se fundamenta no espaço público regulado por normas que coordenam os indivíduos, mas que já não lhes fornecem um sentido último de existência. Perdemos o télos.

By Imagem criada com IA (copilot)

O grande problema, conforme destacou o professor, é que ainda estamos exercitando o modelo iluminista, um modelo que foi pensado para uma determinada época, mas que se estendeu para além de seu tempo de validade. Vivemos a crise desse modelo, sem ainda termos forjado um novo.

Para não cair no relativismo absoluto, é necessário criar acordos que vão além do “mínimo ético”. O professor citou "O Senhor das Moscas", de William Golding, como metáfora do que acontece quando as regras civilizatórias se dissolvem. A pergunta que paira é: como viver nessa confusão que a sociedade se tornou?

Encontramo-nos, assim, tensionados entre dois polos: de um lado, o eudemonista (a busca da felicidade individual como norte); de outro, o normativista (a submissão a regras exteriores como garantia de ordem). Mas uma certeza ficou clara ao final da aula, e foi uma grata surpresa para muitos: tudo começa, e talvez tudo termine, com o velho Sócrates. A pergunta que nos orienta, desde a ágora ateniense até hoje, continua sendo: “Qual é o lugar da pessoa no cosmos?”

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2018. 

CORTINA, Adela. Ética mínima: introdução à filosofia prática. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 

GOLDING, William. Senhor das moscas. Tradução de Sérgio Flaksman. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.

LIMA VAZ, Henrique Cláudio de. Filosofia e ética: introdução à ética filosófica IV. São Paulo: Loyola, 2002.

MILL, John Stuart. Utilitarismo. Tradução de Rita de Cássia Gondim Neiva. São Paulo: Edipro, 2019. 

RACHELS, James. O caso do bebê Teresa. In: RACHELS, James; RACHELS, Stuart. Elementos de filosofia moral. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. p. 1–4.



Ser ou não ser um andarilho?

João continua cansado. Um cansaço que já não sabe se é do corpo ou de um pensamento que se alojou na cabeça e de lá não quer sair. Para ele, ora a vida tem sentido, ora não tem sentido algum. E é justamente nessa gangorra que ele percebeu: o sentido agora é externo. João não precisa mais cavar dentro de si, não precisa mais dessa busca metafísica, dessa arqueologia da alma que só trazia poeira e dedos gastos. O sentido, embora seja parte dele, talvez a parte que sempre lhe faltava, habita agora fora do seu peito. Mora em outro canto. E com o passar do tempo, esse sentido vai se deixando, se desapegando, se afastando num movimento natural que dói e alivia ao mesmo tempo, como se a vida estivesse apenas devolvendo algo que nunca foi dele de verdade.

João, às vezes, sente uma vontade quase física de sumir. Mas não é aquela vontade covarde de desaparecer. É o contrário: ao chegar em casa e ver as paredes, ele sente uma vontade absurda de sair pelo mundo, de virar um andarilho, de ser o homem que ele vê de relance na beira da estrada. João tem vontade de virar hippie. Não pelo estereótipo, mas pela ausência de amarras. Viver do que a natureza der, do que as mãos alheias compartilharem. Toda vez que seus olhos cruzam com a figura de um andarilho, uma pergunta atravessa seu crânio como um raio manso: Poderia ser eu. Sem cobranças. Sem as obrigações sociais que vestem a gente de terno e gravata invisível. Aliás, a única ordem que ele teria que seguir seria a da estrada. Simplesmente andar, sem olhar para trás, levando a carcaça como única bagagem.

Às vezes, João acha que o que escreve é uma grande besteira. Uma perda de tempo descomunal.

Deixa de ser fresco, João. Vai viver. É uma voz interior que fala, uma voz que cobra, que sempre cobra. Mas viver, ah, viver... como custa. Não tem jeito. Ele tem um coraçãozinho com mania de morar em território agitado, hora inquieto, hora nervoso, hora medicado. João se vê coberto de rótulos que ele mesmo se pôs a taxar, uma autocategorização que aperta e sufoca. Nesse emaranhado de nomes que deu a si mesmo, João sobrevive. Respira, come, anda, trabalha, dorme mal. Sobrevive, com uma competência assustadora.

Mas o que João queria mesmo, no fundo do seu coraçãozinho rotulado e cansado, era viver. Apenas isso. E que isso fosse finalmente simples.





quinta-feira, 2 de abril de 2026

O (pseudo) poderoso e seu ego frágil ou o bajulador contumaz

Por: Atualpa Ribeiro

É curioso como, quando nos afastamos de uma comunidade, conseguimos enxergar com mais nitidez certas peculiaridades que, no convívio diário, passam despercebidas. Nós mesmos já vivemos isso: ao entrar em um ambiente novo, percebemos gestos, olhares e posturas que revelam muito mais do que palavras. Foi assim que nos deparamos com a figura de um “pseudo-poderoso”, alguém que se sustenta na ilusão de ser admirado, mas cuja fragilidade se revela justamente na necessidade constante de bajulação. Ele evita elogiar os outros, como se qualquer reconhecimento fosse uma ameaça ao seu lugar, e diante de qualquer demonstração de inteligência ou espontaneidade, parece se sentir acuado. É quase automático: ao falar, busca os olhares daqueles que, em sua mente, poderiam um dia usurpar seu trono imaginário.

Se pensarmos com Freud, conseguimos compreender melhor esse comportamento. O id alimenta o desejo inconsciente de ser reconhecido; o ego, que deveria equilibrar realidade e desejo, mostra-se frágil, incapaz de lidar com críticas ou dividir espaço; e o superego, que deveria ser a instância moral, aparece distorcido, levando-o a acreditar que precisa reafirmar sua autoridade a todo instante, mesmo diminuindo os outros.

E não é raro vermos como esse tipo de personalidade se conecta à arte da bajulação. Plutarco, em Como Distinguir o Bajulador do Amigo, já alertava que o bajulador não busca a verdade, mas a conveniência. Ele alimenta o ego frágil do “pseudo-poderoso”, reforçando sua ilusão de grandeza, enquanto o verdadeiro amigo seria aquele capaz de oferecer críticas construtivas e reconhecimento sincero.

No nosso dia a dia, isso se traduz em situações bem concretas: aquele chefe que só se cerca de quem o elogia, aquele colega que nunca reconhece o esforço dos outros, ou até mesmo aquele líder comunitário que se sente ameaçado quando alguém propõe uma ideia diferente. Nessas horas, percebemos como a bajulação vira moeda de troca, perpetuando ilusões de poder e fragilizando relações autênticas. Isso mesmo moeda de troca, troca de emprego, cargos, nunca é sobre as potencialidades do agente público, mas sempre será sobre quanta baba estou disposto a produzir nos hemisférios baixos.

No fundo, o que vemos é um retrato humano: um ego que não se sustenta sozinho, precisando do aplauso constante para sobreviver. E nós, ao observarmos isso, entendemos como é importante distinguir quem nos bajula por oportunismo de quem nos acompanha por amizade verdadeira.



P.S. O trecho abaixo retirei desse site - Como Distinguir o Bajulador do Amigo - Plutarco | Livro Resumido

"Os diferentes tipos de bajuladores

Plutarco identifica três tipos principais de bajuladores:

  • Os bajuladores óbvios: Esses são os bajuladores que são fáceis de detectar. Eles estão sempre elogiando você, concordando com tudo o que você diz e tentando fazer você se sentir bem.
  • Os bajuladores sutis: Esses são os bajuladores que são mais difíceis de detectar. Eles podem ser muito charmosos e inteligentes, e podem parecer genuinamente interessados em você. No entanto, eles estão sempre tentando sutilmente influenciar você ou obter algo de você, ou até mesmo fazer você derrapar.
  • Os bajuladores inconscientes: Esses são os bajuladores que não estão cientes de que estão bajulando. Eles podem ser pessoas muito gentis e atenciosas, mas podem ser facilmente influenciadas por outras pessoas.

Estratégias de Plutarco para identificar o bajulador

Plutarco alerta que a bajulação é perigosa porque se disfarça de amizade, explorando nosso amor-próprio. Ele oferece uma série de critérios para distinguir o bajulador do amigo:

  • O bajulador sempre concorda: ele evita contradições, mesmo quando percebe erros. O amigo, ao contrário, corrige com franqueza, pois se preocupa com nosso crescimento.

  • O bajulador exagera elogios: usa palavras doces e constantes para inflar o ego, enquanto o amigo reconhece méritos com equilíbrio e sinceridade.

  • O bajulador busca conveniência: aproxima-se quando há benefícios, mas se afasta em momentos difíceis. O amigo permanece presente, mesmo quando não há vantagem.

  • O bajulador alimenta ilusões: reforça crenças equivocadas para manter a dependência emocional, enquanto o amigo nos ajuda a enxergar a realidade.

  • O bajulador teme a verdade: evita críticas para não perder espaço, enquanto o amigo não hesita em apontar falhas, pois valoriza a integridade da relação."

segunda-feira, 30 de março de 2026

Aquilo que chamavam de brincadeira

Ele não soube exatamente quando começou.

Talvez no primeiro dia. Talvez antes, naquele instante em que entrou pela porta de um novo ambiente de trabalho acreditando que ali encontraria apenas rotina, responsabilidades e, quem sabe, algum reconhecimento.

Chamemos ele de André.

André era desses homens que carregam uma postura tranquila, respeitosa, alegre, uma pessoa muito comunicativa. Tinha passado por várias cidades, diferentes instituições, sempre com o mesmo cuidado: tratar todos com dignidade. Nunca imaginou que, justamente ali, onde se fala tanto em educação e convivência, enfrentaria algo que não sabia nomear no início.

Chamemos ela de Helena.

Helena era expansiva, falava alto, ria com facilidade. No começo, André pensou que era apenas o jeito dela. Mas, com o tempo, as falas começaram a atravessar limites invisíveis.

“André, deixa eu te chupar?”

Ele riu sem graça. Achou que fosse uma piada infeliz.

Mas vieram outras.

“Meu marido me traiu, mas não é por isso que desejo te comer não, sinto desejo e não sei explicar.”
“Fica aqui no almoço, vai dar certo lá no miniauditório.”
“Me dá um beijo de língua de seis minutos.”
“Sonhei contigo… foi um sonho muito erótico.”
“Você tem um cheiro de macho que o colega do lado não tem… esse cheiro me excita.”

As palavras começaram a pesar.

O que antes parecia deslocado, agora se repetia. E não era só fala.

Houve o toque que não foi autorizado.
O pé que insistia em ultrapassar limites no banco de trás do carro.
O riso ao redor, cúmplice ou distraído, que transformava tudo em “brincadeira”.

E talvez esse tenha sido o ponto mais duro.

Ninguém dizia: isso está errado.
Diziam: “é só o jeito dela”.
Ou simplesmente… não diziam nada.

André começou a se calar.

Não porque não sentia. Mas porque não sabia como nomear aquilo sem parecer exagero. Afinal, homem não sofre esse tipo de coisa, ou pelo menos foi isso que aprendeu, silenciosamente, ao longo da vida.

Mas sofria.

Voltava para casa carregando algo que não sabia explicar. O silêncio começou a atravessar o jantar. O olhar distante começou a incomodar quem estava ao lado.

Aquilo que acontecia no trabalho não ficava no trabalho.

Foi um ano inteiro assim.

Um ano de frases atravessadas, de risos deslocados, de limites ignorados. Um ano tentando fingir normalidade diante de alguém que agia como se nada estivesse acontecendo.

E talvez fosse isso o mais perturbador: a naturalidade com que o absurdo se instala.

Até que um dia André entendeu.

Não era brincadeira.
Não era exagero.
Não era “coisa da cabeça dele”.



Era violência, mas como André é homem percebeu que no ecossistema a mulher ainda é frágil mesmo que seja a agressora. 

Uma violência que não deixa marca visível, mas corrói por dentro. Que não grita, mas insiste. Que não aparece em fotos, mas aparece no cansaço, na irritação, no afastamento.

E então ele fez o que muitos demoram a fazer:

Ele decidiu falar.

Não para expor.
Mas para não carregar sozinho.
Não para destruir alguém.
Mas para reconstruir a si mesmo.

Porque existem coisas que só continuam existindo enquanto permanecem sem nome.

E dar nome às coisas…
é o primeiro passo para que elas deixem de acontecer.

🤔🤔Reflexão final🤔🤔

Quantas situações ainda são tratadas como “brincadeira”, mas, no fundo, são formas de desrespeito?

Quantas pessoas silenciam por medo, vergonha ou por não saberem se serão levadas a sério?

Ambientes saudáveis não se constroem apenas com discursos, mas com limites claros, respeito mútuo e coragem para interromper o que fere.

Porque respeito não é opcional.
E silêncio nunca foi solução, no entanto, André é mais um no ecossistema que pode ser caçado na cadeia animal da administração pública. 



sábado, 21 de fevereiro de 2026

CIDADANIA, CONVIVÊNCIA DEMOCRÁTICA E GESTÃO ESCOLAR: DA COLMEIA À LEGISLAÇÃO

Por Atualpa Ribeiro e Lília Cardoso

Coordenação Regional Projeto Professor Diretor de Turma: CRPPDT_CREDE13_CEDEA

Pensar a cidadania e a convivência democrática como uma construção coletiva, à luz da metáfora da colmeia, exige ir além de imagens poéticas e assumir um compromisso político, ético e pedagógico. A democracia, assim como a vida na colmeia, não se sustenta por hierarquias autoritárias, mas por relações, circulações e responsabilidades compartilhadas. Hannah Arendt (cientista política) nos lembra que a política nasce exatamente nesse espaço do entre, onde os sujeitos aparecem uns para os outros:

“A política baseia-se na pluralidade dos homens” (A condição humana).

A escola, enquanto espaço público, é um lugar privilegiado dessa pluralidade. Quando reduzimos a gestão a decisões centralizadas ou a discursos autoritários, rompemos com a própria condição de possibilidade da educação democrática. Não há colmeia viva sem circulação; não há democracia sem participação. Nesse sentido, Boaventura de Sousa Santos (filósofo português) alerta para os riscos das democracias formais esvaziadas de participação real:

“Não há democracia sem democratização da democracia” (A difícil democracia).


Fonte: Arquivo pessoal. Jornada Pedagógica 2026 EEMTI GASPAR DUTRA. 

A gestão democrática da escola não pode ser apenas um dispositivo legal cumprido formalmente; ela precisa ser vivida, reinventada e contextualizada. Assim como a polinização depende do território, do clima e das flores disponíveis, a democracia no ambiente escolar precisa dialogar com as realidades concretas: escolas do campo, escolas indígenas, escolas profissionaisizantes, escolas de tempo integral, escolas urbanas de periferia. A lei estabelece o princípio, mas não engessa a forma. É exatamente isso que afirma a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 206, inciso VI, ao determinar que:

“O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: (…) VI – gestão democrática do ensino público, na forma da lei.”

A lei que regulamenta esse princípio é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), que em seu artigo 3º, inciso VIII, reafirma a gestão democrática como fundamento da educação nacional. E, de forma ainda mais concreta, o artigo 14 estabelece que os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática, assegurando:

 a participação dos profissionais da educação na elaboração do Projeto Político-Pedagógico (PPP);

 a participação da comunidade escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes.

A legislação, portanto, não autoriza modelos autoritários de gestão. Pelo contrário: ela combate, em sua origem, qualquer tentativa de silenciar a pluralidade ou concentrar o poder. Em um país marcado, nos últimos anos, por discursos autoritários e antidemocráticos, reafirmar a gestão democrática é um ato político e pedagógico de resistência. Norberto Bobbio (filósofo italiano) nos lembra que a democracia não é um estado acabado, mas um processo permanente:

“A democracia é o poder em público” (O futuro da democracia).

Trazer o poder “para o público” significa abrir decisões, escutar vozes, permitir o dissenso e construir consensos possíveis. O professor diretor de turma, nesse cenário, exerce um papel fundamental: ele atua como mediador, articulador e polinizador das relações democráticas, garantindo que a escola não se transforme em um espaço de obediência cega, mas de formação para a cidadania. Paulo Freire (patrono da educação brasileira) reforça essa ideia ao afirmar que:

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam em comunhão” (Pedagogia do Oprimido).

A educação democrática não se faz por imposição, mas por diálogo. E diálogo, como a polinização, exige movimento, escuta e reconhecimento do outro. Quando o ambiente escolar promove o diálogo, ele semeia conhecimento, valores e cidadania. Adela Cortina (filósofa espanhola) amplia essa discussão ao falar de uma ética da convivência:

“Não basta conviver; é preciso construir uma convivência justa” (Ética mínima).

A gestão democrática, portanto, ultrapassa procedimentos administrativos, ela constitui uma postura ética. Ela exige compromisso com a dignidade, com o respeito às diferenças e com a justiça social. Mário Sérgio Cortella, por sua vez, nos lembra que educar é sempre um ato político:

“Não se nasce ético, torna-se” (Não nascemos prontos).

A escola, como colmeia viva, é o espaço privilegiado desse “tornar-se”. Cada prática pedagógica, cada decisão coletiva, cada escuta e cada conflito mediado contribuem para a formação de sujeitos democráticos.

Diante disso, afirmar a gestão democrática é também assumir uma postura anti-autoritária. Não basta ser contra o autoritarismo em discurso; é preciso combatê-lo nas práticas cotidianas, nas relações hierárquicas rígidas, nos silêncios impostos e nas decisões que excluem.

Assim como as abelhas garantem a vida ao polinizar, a escola garante a democracia ao semear participação, cultivar o diálogo e produzir coletivamente o mel da cidadania. Fora disso, não há educação democrática possível – o que existe são simulacros que não sustentam a vida social.

Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2016.

BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. 12. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 23 dez. 1996.

CORTELLA, Mário Sérgio. Não nascemos prontos: provocações filosóficas. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2016.

CORTINA, Adela. Ética mínima: introdução à filosofia prática. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A difícil democracia: reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016.




sábado, 3 de janeiro de 2026

Emanuel e a Raiva


Emanuel não sabe exatamente de onde vem.
Talvez um analista soubesse nomear,
talvez a infância, o corpo cansado ou o silêncio acumulado explicassem.
Ele só sabe que, às vezes, a raiva chega sem pedir licença.
Chega quente.
Chega mortal, não no gesto, mas na intenção que assusta até quem a sente.


Não é ódio dirigido, é um incêndio interno.
Uma vontade de esmagar o mundo para que o mundo pare de apertá-lo.
Emanuel percebe: não quer ferir ninguém,
mas a raiva respinga,
e quem está por perto sente o calor das chamas.


Ele odeia esse sentimento.
Odeia porque reconhece: ele também é isso.
Carrega um corpo parado demais,
um coração que precisa correr,
um pensamento que precisa suar para não explodir.

A raiva o consome por dentro,
como se fosse fome mal compreendida.
Emanuel aprende, do jeito mais difícil,
que negar não cura.
Identificar é o primeiro gesto de cuidado.

E ele já deu esse passo.
Olhou para dentro e disse: eu vejo você.
Agora vem o mais difícil:
criar estratégias para não transformar dor em ataque,
cansaço em palavra dura,
vazio em ferida alheia.

Emanuel não busca perfeição.
Busca freio.
Busca movimento.
Busca aprender a sair de si antes que a raiva saia por ele.

Talvez correr.
Talvez respirar.
Talvez silêncio.
Talvez ajuda.

Ele segue,
não como quem venceu a raiva,
mas como quem decidiu não deixá-la dirigir.

Bertrand Russel, Keith Donnellan e o problema 'Alexa'

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