sexta-feira, 24 de abril de 2026
Expressão linguística, Russell e Donellan
quarta-feira, 15 de abril de 2026
O diabo existe?
Por: Atualpa Ribeiro
Muitas vezes sou interpelado, na catequese e em diversos encontros com jovens, adultos e idosos, sobre se o diabo existe. Eu sempre falo a partir de uma perspectiva lógica, inspirada no Padre Quevedo, que defendia que o diabo não tem ação sobre nós, seres humanos, tendo em vista que somos imagem e semelhança do Altíssimo e, por isso, ele não pode nos alcançar.
Eu não tenho medo de Satanás, do demônio, chame como quiser. Eu tenho medo é da crueldade que acerta o cachorro "Orelha". Eu tenho medo da perversidade com que políticos roubam e, muitas vezes, retiram a oportunidade de crianças e jovens desenvolverem suas potencialidades. Eu tenho medo da crueldade que invade o espírito humano. Aliás, quando digo isso, percebo como se ainda existisse uma força exterior que impulsionasse o ser humano a realizar essas ações. Observe como esse discurso já está tão impregnado em nosso imaginário.
Mas, continuando, eu tenho medo desse instinto primitivo que faz com que um pai de família, ao decidir comemorar seu aniversário com um tema político, seja assassinado dentro da própria casa. Eu tenho medo da maldade com que alguém acelera o carro para passar por cima de um gatinho no meio da rua. Eu tenho medo dos mais de trinta socos que aquela moça recebeu no elevador. Eu tenho medo das ameaças constantes que arrepiam, pois a cada instante um ditador se posiciona dizendo que vai lançar bombas atômicas.
Eu tenho medo da profissional que atendeu minha esposa com frieza quando perdíamos nosso segundo filho/filha e, não bastasse a indiferença em nos atender, disse um sonoro não, que não iríamos conseguir.
Eu tenho medo da crueldade humana, que de humano não tem nada. Se eu tenho medo do diabo, sim, tenho medo do diabo que se denominou de 'Gente' e terceirizou a crueldade ao diabo, se esquivando de qualquer responsabilidade ou de forma pseudo-clínica dizem: "não leve a mal ele tem transtornos mentais".
Por isso, não seja o capeta de estimação do seu vizinho.
domingo, 12 de abril de 2026
A teoria da significação em Aristóteles
ARISTÓTELES. Da interpretação. Tradução de José Veríssimo Teixeira da Mata. São Paulo: Editora Unesp, 2013. Obra original: Περὶ Ἑρμηνείας (Peri Hermeneias), cerca de 350 a.C.
DESCARTES, René. Meditações metafísicas. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2018. Obra original: Meditationes de prima philosophia, 1641.
OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta linguístico-pragmática na filosofia contemporânea. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006.
PLATÃO. Crátilo: ou sobre a correção dos nomes. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora UFPA, 2015. Obra original: Κρατύλος (Kratylos).
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. Organização de Charles Bally e Albert Sechehaye. Tradução, notas e posfácio de Marcos Bagno. Apresentação de Carlos Faraco. São Paulo: Parábola Editorial, 2021. Obra original: Cours de linguistique générale, 1916.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas.
Tradução de Marcos G. Montagnoli. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. Obra
original: Philosophische Untersuchungen, 1953.
sábado, 11 de abril de 2026
Platão: linguagem como instrumento
Iniciamos a disciplina de Epistemologia sob a condução da
professora Edna Magalhães. Sua forma de lecionar mantém vínculos com a didática
tradicional, mas seria um equívoco interpretarmos esse "tradicional"
como sinônimo de um espírito enciclopédico no qual o discente absorve
passivamente os preceitos ditados pelo docente. A professora Edna nos estimula
a concatenar as ideias antes de externarmos qualquer discurso, exigindo uma
organização interna do pensamento que antecede a fala.
Meu primeiro movimento intelectual na aula foi uma tentativa
de crítica à postura de certos epistemólogos que considero reféns do sistema
hegeliano. A professora Edna, devo registrar, não se enquadra nessa categoria.
Minha crítica se dirigia ao que chamei de epistemicídio provocado desde Platão
até a crise do século XX.
A professora, nesse momento, apresentava a disciplina
discutindo o "mito do dado", formulado pelo filósofo americano
Wilfrid Sellars. Trata-se da crítica à ideia de que haveria um dado sensorial
bruto e imediato capaz de fundamentar o conhecimento empírico sem qualquer
mediação inferencial. Sellars argumenta que mesmo a percepção mais elementar já
está carregada de conceitos e linguagem, não havendo esse acesso puro e direto
ao real. É nesse sentido que, para um grupo seleto de pensadores, o conhecimento
não se origina exclusivamente da sensibilidade, mas envolve uma complexa rede
de justificações que ultrapassa o simples contato com o mundo sensível.
Diante disso, conversamos e chegamos à conclusão de que a
mente é, em grande medida, fruto do que a sociedade produz. A professora, como
uma boa pragmatista, comentou o pensamento de Richard Rorty. Para Rorty, tudo o
que pensamos deriva da cultura e de nossas experiências contingentes. Rorty se
insere na tradição pragmatista iniciada por Charles Sanders Peirce, embora dele
se distancie em pontos fundamentais. Enquanto Peirce sustentava que a verdade
seria a opinião destinada a ser aceita por todos os investigadores no limite
ideal de uma investigação científica, Rorty abandona completamente essa noção
de convergência final. Para o neopragmatista, o conhecimento não é um
espelhamento fiel da realidade, mas uma ferramenta para lidarmos com o mundo,
sempre circunscrita a vocabulários contingentes e historicamente situados.
Fiz um questionamento sobre a razão de ainda estudarmos
Platão em um doutorado em filosofia contemporânea. A professora me respondeu
prontamente que a universidade possui uma "obrigatoriedade
conceitual", isto é, precisa contemplar a formação do pensamento desde
suas raízes, ainda que para criticá-las. Nesse sentido, ela nos situou diante
das três grandes matrizes teóricas da epistemologia: as teorias fundacionistas,
as coerentistas e as infinitistas, sem esquecer das posições convencionalistas.
A partir desse momento, debruçamo-nos sobre o diálogo Crátilo,
de Platão. A professora nos expôs o contexto geral da obra e as três formas
como Platão concebe a linguagem: como remédio, como veneno ou como cosmético.
Como remédio, a linguagem possui um efeito construtivo, capaz de organizar o
pensamento. Como veneno, ela carrega a tensão do conflito e da manipulação,
fenômeno que hoje associamos às fake news. Como cosmético, a linguagem cria uma
máscara, seja por meio da propaganda ou de discursos políticos vazios que
adornam a realidade sem revelá-la.
Mas voltemos ao cerne do problema da disciplina. A pergunta
norteadora da aula foi: quem deu nome a todas as coisas? Eu brinquei dizendo
que foi Adão a mando de Deus.
A discussão entre Crátilo e Hermógenes começa com um atrito
fundamental. Para Crátilo, as coisas recebem o nome de acordo com suas formas
essenciais. Daí provém o substantivo como algo derivado da substância. Para
Hermógenes, porém, os nomes não possuem relação com as formas, sendo
estabelecidos apenas por convenções sociais. Platão, defensor e fundador da
teoria idealista, reconhece que existem coisas inferiores na dimensão sensível,
as quais convergem, em seu aspecto superior, para o inteligível. Para continuarmos
falando sobre a similaridade entre nomes e coisas, precisamos antes compreender
o que significa filosofar para Platão. A resposta é simples: filosofar consiste
na busca de um saber ordenado sobre algo. Falar, portanto, não é simplesmente
proferir palavras soltas, mas externar um discurso concatenado e ordenado que
faça sentido.
O texto que servirá de base para o segundo momento da aula é
extraído do livro Reviravolta Linguístico-Pragmática na Filosofia
Contemporânea, do professor Manfredo Araújo de Oliveira, da Universidade
Federal do Ceará. A pergunta que se impõe a partir dessa leitura consiste em
saber de onde provém a significação. Existe uma relação arbitrária entre objeto
e nome? Platão advoga o naturalismo ou o convencionalismo? Temos uma forma
natural para a linguagem? Uma coisa ficou clara na exposição: para Platão, a
linguagem exige um sistema e uma organização. Ela não é algo amorfo. Exige uma
correspondência fundamental entre a estrutura gramatical e a estrutura
ontológica. Em outras palavras, a linguagem não é uma construção inteiramente
arbitrária.
Como já era previsível, Platão considera a linguagem um
instrumento. Ela não é algo externo à razão. Para Platão, existem dois
processos distintos: primeiro nós pensamos e, em seguida, a linguagem realiza
suas operações de designação. O idealismo platônico considera, portanto, a
linguagem como um instrumento de promoção da verdade. O esquema é o seguinte: o
pensamento equivale ao conceito da coisa em si; existe uma representação que
equivale à correspondência, a qual se encaminha para um objeto no mundo. Desse
modo, Platão não é estritamente naturalista nem estritamente convencionalista.
É importante notar que Platão oscila entre essas duas
visões. Ele reconhece que há uma dimensão natural no nome, que deve refletir de
algum modo a realidade, mas também admite que a linguagem é construída por
convenção e pode ser imperfeita. Platão rejeita tanto o naturalismo puro, pois
não há evidência de que os sons das palavras possuam uma essência universal
correspondente às coisas, quanto o convencionalismo absoluto, que reduz a
linguagem a um mero acordo humano ignorando sua capacidade de revelar verdades
mais profundas. No entanto, é crucial observar que a posição defendida por
Sócrates no diálogo não é a de Crátilo. Este sustentava que quem conhece os
nomes conhece também as coisas. Sócrates refuta essa tese ao final do diálogo,
mostrando que se os nomes fossem a única via de acesso ao real estaríamos
condenados à imperfeição do legislador que os instituiu. Conhecer as coisas
exige, para Platão, voltar-se diretamente às Ideias, o que revela seu
antagonismo em dominar a nomenclatura que as designa.
A professora Edna pontuou mais uma vez que Platão realiza
uma apologia da teoria instrumentalista da linguagem. Existe uma separação
entre palavras e coisas. Platão define a linguagem como um funcionamento, como
um objeto que serve de caminho para o conhecimento. Contudo, sua estrutura
deixa em aberto uma questão crucial: até que ponto a linguagem pode realmente
alcançar a essência das coisas ou será ela sempre uma mediação imperfeita entre
o pensamento e a realidade?
No terceiro momento da aula, surgiu um questionamento sobre
a definição de crença. A professora estabeleceu então a distinção entre crença,
conhecimento e verdade. No âmbito da crença, existe a possibilidade de termos
uma crença falsa. No âmbito do conhecimento, exige-se uma crença verdadeira.
Unindo crença e verdade, temos o conhecimento entendido como crença verdadeira
justificada. Esse argumento atravessa a linguagem que para Platão, a opinião
verdadeira sem explicação racional não constitui conhecimento genuíno.
Veio à baila, então, René Descartes com sua hipótese
radical: e se a vida fosse um sonho? Enquanto dormimos, tudo o que acontece no
sonho nos parece real, por mais absurdo que seja. Ao acordarmos, percebemos a
equiparação entre crença e verdade: a crença deve corresponder a um fato, e
esse fato deve ser justificado. O conhecimento, portanto, trafega entre três
aspectos: verdade, juízo e crença.
Em conversas paralelas após a aula, utilizei o exemplo da
força gravitacional. No final do século XVI, Galileu Galilei sustentava a
convicção teórica de que a massa não afeta a aceleração da gravidade. Seu
raciocínio, amparado mais em experimentos mentais do que em comprovações
empíricas, sustentava que ao lançar corpos de pesos diferentes eles chegariam
ao solo simultaneamente, descontada a resistência do ar. A crença de Galileu
não podia ser empiricamente justificada com os recursos técnicos de sua época,
mas era sustentada por uma arquitetura racional e matemática. Essa crença foi
confirmada apenas séculos depois, quando o astronauta David Scott, na missão
Apollo 15, deixou cair simultaneamente um martelo de um quilo e uma pena de
trinta gramas na superfície lunar, onde a resistência do ar é nula. Ambos
tocaram o solo juntos. A crença que Galileu possuía tornou-se verdadeira e foi
finalmente justificada, correspondendo a um fato. Contudo, na época de Galileu,
tratava-se de uma crença verdadeira ainda carente de justificação empírica
plena, o que nos mostra como a tríade crença, verdade e justificação nem sempre
caminha junta na história do pensamento.
O professor Manfredo Araújo de Oliveira conclui o texto
dizendo que, assim como existe um carpinteiro para a construção de uma mesa,
existe para Platão um criador de palavras. Platão advoga a existência das
coisas em si. A linguagem é um instrumento, não o motor do conhecimento. Anos
depois, o pensador moderno Leibniz, em seu projeto racionalista de uma Characteristica
Universalis, daria continuidade a essa busca por uma linguagem que
espelhasse a estrutura do real. Leibniz propôs a criação de um alfabeto
universal de símbolos, um sistema que contemplasse o real independentemente de
suas contingências, uma linguagem universalizante capaz de eliminar as
ambiguidades e os equívocos da comunicação humana.
O que penso sobre Platão, Leibniz e todos os idealistas que construíram conhecimento sobre bases que considero problemáticas ficará para as próximas notas de aula.
Referências
GOLDING, William. Senhor das moscas. Tradução de
Sérgio Flaksman. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014. Obra original: Lord of the
Flies, 1954.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes.
Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007. Obra original: Grundlegung
zur Metaphysik der Sitten, 1785.
OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta
linguístico-pragmática na filosofia contemporânea. 4. ed. São Paulo:
Edições Loyola, 2006.
PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. Tradução de José
Teixeira Coelho Netto. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010. (Coleção Estudos).
Coletânea de textos organizada postumamente.
PLATÃO. Crátilo: ou sobre a correção dos nomes.
Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora UFPA, 2015. Obra original: Κρατύλος
(Kratylos).
RORTY, Richard. A filosofia e o espelho da natureza. Tradução de Jorge Pires. Lisboa: Dom Quixote, 1988. Obra original: Philosophy and the Mirror of Nature, 1979.
SELLARS, Wilfrid. Empirismo e filosofia da mente. Tradução de Sofia Helena Gollnick Ferreira. Petrópolis: Vozes, 2008. (Coleção Epistemologia). Obra original: Empiricism and the Philosophy of Mind, 1956.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
Dilemas éticos: Caso Bebê Tereza
Estou cursando a disciplina de Ética Normativa, ministrada pelo professor José Elielton. Já estamos na quarta aula, e devo registrar, desde já, a invejável elasticidade intelectual com que ele conduz as discussões. Não bastasse a atualidade cortante dos temas que repercute em sala, há ainda um tom jocoso na abordagem das teorias eticistas, um humor fino, nunca desrespeitoso, que torna o ambiente leve e, ao mesmo tempo, profundamente edificante. É como se o riso desarmasse as defesas retóricas e nos obrigasse a pensar de fato.
O professor iniciou a disciplina situando o que chamou de “tema gerador da filosofia”: a ética. Em sua perspectiva, o objeto da ética não é o sujeito isolado em sua torre de marfim, mas as relações humanas, o eu diante dos outros, o eu com os outros. Em uma democracia, acrescentou, é necessário dispor de um mínimo ético que oriente a convivência. Imediatamente lembrei-me da pensadora espanhola Adela Cortina e de sua defesa de uma ética mínima para as sociedades pluralistas, uma ressonância que o professor não citou, mas que soou perfeita aos meus ouvidos.
Logo em seguida, veio a primeira provocação, daquelas que nos tiram o chão: “As facções criminosas, PCC, Comando Vermelho, têm ética?” A pergunta desdobrou-se em outras: Qual a diferença entre moralidade e moralismo? Que critérios utilizamos para decidir entre o certo e o errado?
Ficou claro que, se não observamos os contextos de decisão, caímos num vazio. É preciso, portanto, um coerentismo mínimo: uma exigência de que exista alguma congruência no processo de escolha, uma justificativa para a mudança de postura. Sim, grupos criminosos e organizações terroristas possuem códigos de conduta, isso é fato. O que nos levou a segunda indagação: a moralidade consiste em um conjunto de costumes, influências familiares, religiosas, midiáticas que carregamos e que informam nossos juízos cotidianos. Outra coisa, bem distinta, é o moralismo: uma patologia, uma rigidez que julga sem compreender, uma aplicação cega de normas sem a mediação da reflexão crítica.
O professor então nos fez notar um incômodo: o uso de máscaras sociais. Dependendo da plateia, se conservadora, se composta por colegas ou por estranhos, nós recuamos, deixamos de expressar o posicionamento que de fato gostaríamos de adotar. Eu mesmo experimentei isso na pele durante a aula.
A discussão avançou para a relação entre tecnologia e poder de decisão. Quanto mais a técnica amplia nosso domínio sobre as circunstâncias, mais nos vemos confrontados por dilemas antes impensáveis. Foi nesse ponto que veio à tona o Caso Bebê Tereza e, também, os casos de gestações em que se descobre, tardiamente, uma severa má-formação fetal.
O professor discorreu sobre o ocorrido na Flórida, em 1998. O Caso Bebê Tereza: um feto anencefálico, que certamente não sobreviveria por mais do que alguns dias, ou horas, após o parto, mas cujos órgãos poderiam salvar a vida de outras cinco crianças. A corte da Flórida, no entanto, determinou que a gestação deveria ser levada a termo, mesmo sabendo que o bebê morreria logo em seguida. A comoção pública foi imensa, pois estava em jogo o sacrifício de uma vida inviável para salvar cinco vidas viáveis.
Ao discutirmos o caso, busquei ser incisivo em minha postura. Adotei uma posição claramente consequencialista. Em linhas gerais, o consequencialismo preza pela maximização do bem-estar geral: fazer o “mal mínimo” para beneficiar o maior número de pessoas, ainda que isso implique algum sofrimento individual. Durante minha explanação, afirmei que “concordava com os pais” da criança. Foi aí que o professor me fez enxergar um movimento interno sutil, mas revelador.
Ele observou que minha fala foi uma espécie de autocensura. Em momento algum eu disse: “Eu mataria a criança.” Preferi a construção indireta: “Concordo com o posicionamento dos pais.” Ao esquivar-me do termo “matar”, eu não apenas suavizava a crueza do ato, eu me protegia do julgamento alheio. O que os outros pensariam de mim se eu usasse a palavra exata? A pergunta silenciosa que me atravessou foi: “Que rótulo me dariam?”
A discussão prosseguiu, e, como há vários estudantes de Direito na turma, foi inevitável traçar a distinção entre Ética e Direito. A Ética carrega uma carga discursiva que implica religião, família, pátria, enfim, o uso público da linguagem e da razão em contextos não necessariamente coercitivos. Já o Direito pressupõe uma carga positiva, um sistema de regras e normas com força vinculante dentro de um ordenamento jurídico.
Retomamos, então, a questão do coerentismo mínimo nas relações éticas. Exige-se que qualquer mudança de postura seja acompanhada de uma justificativa razoável, do contrário, a convivência democrática se dissolve em oportunismo. Para entender esse pano de fundo, o professor recorreu ao processo de desvinculação entre Ética e Moral operado por Immanuel Kant.
Antes de Kant, para os clássicos e medievais, indivíduo e sociedade estavam unidos por um télos, uma finalidade comum a ser atingida. O homem não se compreendia fora da pólis ou da civitas Dei. Com a modernidade kantiana, e de modo ainda mais agudo na contemporaneidade, houve uma separação radical. A Ética passou a ser o âmbito dos valores privados, da autonomia da vontade. Já a Política se fundamenta no espaço público regulado por normas que coordenam os indivíduos, mas que já não lhes fornecem um sentido último de existência. Perdemos o télos.
Para não cair no relativismo absoluto, é necessário criar acordos que vão além do “mínimo ético”. O professor citou "O Senhor das Moscas", de William Golding, como metáfora do que acontece quando as regras civilizatórias se dissolvem. A pergunta que paira é: como viver nessa confusão que a sociedade se tornou?
Encontramo-nos, assim, tensionados entre dois polos: de um lado, o eudemonista (a busca da felicidade individual como norte); de outro, o normativista (a submissão a regras exteriores como garantia de ordem). Mas uma certeza ficou clara ao final da aula, e foi uma grata surpresa para muitos: tudo começa, e talvez tudo termine, com o velho Sócrates. A pergunta que nos orienta, desde a ágora ateniense até hoje, continua sendo: “Qual é o lugar da pessoa no cosmos?”
Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson
Bini. São Paulo: Edipro, 2018.
CORTINA, Adela. Ética mínima: introdução à filosofia
prática. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
GOLDING, William. Senhor das moscas. Tradução de
Sérgio Flaksman. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes.
Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.
LIMA VAZ, Henrique Cláudio de. Filosofia e ética:
introdução à ética filosófica IV. São Paulo: Loyola, 2002.
MILL, John Stuart. Utilitarismo. Tradução de Rita de
Cássia Gondim Neiva. São Paulo: Edipro, 2019.
RACHELS, James. O caso do bebê Teresa. In: RACHELS, James; RACHELS, Stuart. Elementos
de filosofia moral. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. p. 1–4.
Ser ou não ser um andarilho?
João continua cansado. Um cansaço que já não sabe se é do corpo ou de um pensamento que se alojou na cabeça e de lá não quer sair. Para ele, ora a vida tem sentido, ora não tem sentido algum. E é justamente nessa gangorra que ele percebeu: o sentido agora é externo. João não precisa mais cavar dentro de si, não precisa mais dessa busca metafísica, dessa arqueologia da alma que só trazia poeira e dedos gastos. O sentido, embora seja parte dele, talvez a parte que sempre lhe faltava, habita agora fora do seu peito. Mora em outro canto. E com o passar do tempo, esse sentido vai se deixando, se desapegando, se afastando num movimento natural que dói e alivia ao mesmo tempo, como se a vida estivesse apenas devolvendo algo que nunca foi dele de verdade.
João, às vezes, sente uma vontade quase física de sumir. Mas não é aquela vontade covarde de desaparecer. É o contrário: ao chegar em casa e ver as paredes, ele sente uma vontade absurda de sair pelo mundo, de virar um andarilho, de ser o homem que ele vê de relance na beira da estrada. João tem vontade de virar hippie. Não pelo estereótipo, mas pela ausência de amarras. Viver do que a natureza der, do que as mãos alheias compartilharem. Toda vez que seus olhos cruzam com a figura de um andarilho, uma pergunta atravessa seu crânio como um raio manso: Poderia ser eu. Sem cobranças. Sem as obrigações sociais que vestem a gente de terno e gravata invisível. Aliás, a única ordem que ele teria que seguir seria a da estrada. Simplesmente andar, sem olhar para trás, levando a carcaça como única bagagem.
Às vezes, João acha que o que escreve é uma grande besteira. Uma perda de tempo descomunal.
Deixa de ser fresco, João. Vai viver. É uma voz interior que fala, uma voz que cobra, que sempre cobra. Mas viver, ah, viver... como custa. Não tem jeito. Ele tem um coraçãozinho com mania de morar em território agitado, hora inquieto, hora nervoso, hora medicado. João se vê coberto de rótulos que ele mesmo se pôs a taxar, uma autocategorização que aperta e sufoca. Nesse emaranhado de nomes que deu a si mesmo, João sobrevive. Respira, come, anda, trabalha, dorme mal. Sobrevive, com uma competência assustadora.
Mas o que João queria mesmo, no fundo do seu coraçãozinho rotulado e cansado, era viver. Apenas isso. E que isso fosse finalmente simples.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
O (pseudo) poderoso e seu ego frágil ou o bajulador contumaz
Por: Atualpa Ribeiro
É curioso como, quando nos afastamos de uma comunidade, conseguimos enxergar com mais nitidez certas peculiaridades que, no convívio diário, passam despercebidas. Nós mesmos já vivemos isso: ao entrar em um ambiente novo, percebemos gestos, olhares e posturas que revelam muito mais do que palavras. Foi assim que nos deparamos com a figura de um “pseudo-poderoso”, alguém que se sustenta na ilusão de ser admirado, mas cuja fragilidade se revela justamente na necessidade constante de bajulação. Ele evita elogiar os outros, como se qualquer reconhecimento fosse uma ameaça ao seu lugar, e diante de qualquer demonstração de inteligência ou espontaneidade, parece se sentir acuado. É quase automático: ao falar, busca os olhares daqueles que, em sua mente, poderiam um dia usurpar seu trono imaginário.
Se pensarmos com Freud, conseguimos compreender melhor esse comportamento. O id alimenta o desejo inconsciente de ser reconhecido; o ego, que deveria equilibrar realidade e desejo, mostra-se frágil, incapaz de lidar com críticas ou dividir espaço; e o superego, que deveria ser a instância moral, aparece distorcido, levando-o a acreditar que precisa reafirmar sua autoridade a todo instante, mesmo diminuindo os outros.
E não é raro vermos como esse tipo de personalidade se conecta à arte da bajulação. Plutarco, em Como Distinguir o Bajulador do Amigo, já alertava que o bajulador não busca a verdade, mas a conveniência. Ele alimenta o ego frágil do “pseudo-poderoso”, reforçando sua ilusão de grandeza, enquanto o verdadeiro amigo seria aquele capaz de oferecer críticas construtivas e reconhecimento sincero.
No nosso dia a dia, isso se traduz em situações bem concretas: aquele chefe que só se cerca de quem o elogia, aquele colega que nunca reconhece o esforço dos outros, ou até mesmo aquele líder comunitário que se sente ameaçado quando alguém propõe uma ideia diferente. Nessas horas, percebemos como a bajulação vira moeda de troca, perpetuando ilusões de poder e fragilizando relações autênticas. Isso mesmo moeda de troca, troca de emprego, cargos, nunca é sobre as potencialidades do agente público, mas sempre será sobre quanta baba estou disposto a produzir nos hemisférios baixos.
No fundo, o que vemos é um retrato humano: um ego que não se sustenta sozinho, precisando do aplauso constante para sobreviver. E nós, ao observarmos isso, entendemos como é importante distinguir quem nos bajula por oportunismo de quem nos acompanha por amizade verdadeira.
P.S. O trecho abaixo retirei desse site - Como Distinguir o Bajulador do Amigo - Plutarco | Livro Resumido
"Os diferentes tipos de bajuladores
Plutarco identifica três tipos principais de bajuladores:
- Os bajuladores óbvios: Esses são os bajuladores que são fáceis de detectar. Eles estão sempre elogiando você, concordando com tudo o que você diz e tentando fazer você se sentir bem.
- Os bajuladores sutis: Esses são os bajuladores que são mais difíceis de detectar. Eles podem ser muito charmosos e inteligentes, e podem parecer genuinamente interessados em você. No entanto, eles estão sempre tentando sutilmente influenciar você ou obter algo de você, ou até mesmo fazer você derrapar.
- Os bajuladores inconscientes: Esses são os bajuladores que não estão cientes de que estão bajulando. Eles podem ser pessoas muito gentis e atenciosas, mas podem ser facilmente influenciadas por outras pessoas.
Estratégias de Plutarco para identificar o bajulador
Plutarco alerta que a bajulação é perigosa porque se disfarça de amizade, explorando nosso amor-próprio. Ele oferece uma série de critérios para distinguir o bajulador do amigo:
O bajulador sempre concorda: ele evita contradições, mesmo quando percebe erros. O amigo, ao contrário, corrige com franqueza, pois se preocupa com nosso crescimento.
O bajulador exagera elogios: usa palavras doces e constantes para inflar o ego, enquanto o amigo reconhece méritos com equilíbrio e sinceridade.
O bajulador busca conveniência: aproxima-se quando há benefícios, mas se afasta em momentos difíceis. O amigo permanece presente, mesmo quando não há vantagem.
O bajulador alimenta ilusões: reforça crenças equivocadas para manter a dependência emocional, enquanto o amigo nos ajuda a enxergar a realidade.
O bajulador teme a verdade: evita críticas para não perder espaço, enquanto o amigo não hesita em apontar falhas, pois valoriza a integridade da relação."
Bertrand Russel, Keith Donnellan e o problema 'Alexa'
Por: Atualpa Ribeiro Notas de sala de aula 3 Disciplina: Filosofia da Linguagem Na terceira aula, refletimos sobre a filosofia da lingua...
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