Iniciamos a disciplina de Epistemologia sob a condução da
professora Edna Magalhães. Sua forma de lecionar mantém vínculos com a didática
tradicional, mas seria um equívoco interpretarmos esse "tradicional"
como sinônimo de um espírito enciclopédico no qual o discente absorve
passivamente os preceitos ditados pelo docente. A professora Edna nos estimula
a concatenar as ideias antes de externarmos qualquer discurso, exigindo uma
organização interna do pensamento que antecede a fala.
Meu primeiro movimento intelectual na aula foi uma tentativa
de crítica à postura de certos epistemólogos que considero reféns do sistema
hegeliano. A professora Edna, devo registrar, não se enquadra nessa categoria.
Minha crítica se dirigia ao que chamei de epistemicídio provocado desde Platão
até a crise do século XX.
A professora, nesse momento, apresentava a disciplina
discutindo o "mito do dado", formulado pelo filósofo americano
Wilfrid Sellars. Trata-se da crítica à ideia de que haveria um dado sensorial
bruto e imediato capaz de fundamentar o conhecimento empírico sem qualquer
mediação inferencial. Sellars argumenta que mesmo a percepção mais elementar já
está carregada de conceitos e linguagem, não havendo esse acesso puro e direto
ao real. É nesse sentido que, para um grupo seleto de pensadores, o conhecimento
não se origina exclusivamente da sensibilidade, mas envolve uma complexa rede
de justificações que ultrapassa o simples contato com o mundo sensível.
Diante disso, conversamos e chegamos à conclusão de que a
mente é, em grande medida, fruto do que a sociedade produz. A professora, como
uma boa pragmatista, comentou o pensamento de Richard Rorty. Para Rorty, tudo o
que pensamos deriva da cultura e de nossas experiências contingentes. Rorty se
insere na tradição pragmatista iniciada por Charles Sanders Peirce, embora dele
se distancie em pontos fundamentais. Enquanto Peirce sustentava que a verdade
seria a opinião destinada a ser aceita por todos os investigadores no limite
ideal de uma investigação científica, Rorty abandona completamente essa noção
de convergência final. Para o neopragmatista, o conhecimento não é um
espelhamento fiel da realidade, mas uma ferramenta para lidarmos com o mundo,
sempre circunscrita a vocabulários contingentes e historicamente situados.
Fiz um questionamento sobre a razão de ainda estudarmos
Platão em um doutorado em filosofia contemporânea. A professora me respondeu
prontamente que a universidade possui uma "obrigatoriedade
conceitual", isto é, precisa contemplar a formação do pensamento desde
suas raízes, ainda que para criticá-las. Nesse sentido, ela nos situou diante
das três grandes matrizes teóricas da epistemologia: as teorias fundacionistas,
as coerentistas e as infinitistas, sem esquecer das posições convencionalistas.
A partir desse momento, debruçamo-nos sobre o diálogo Crátilo,
de Platão. A professora nos expôs o contexto geral da obra e as três formas
como Platão concebe a linguagem: como remédio, como veneno ou como cosmético.
Como remédio, a linguagem possui um efeito construtivo, capaz de organizar o
pensamento. Como veneno, ela carrega a tensão do conflito e da manipulação,
fenômeno que hoje associamos às fake news. Como cosmético, a linguagem cria uma
máscara, seja por meio da propaganda ou de discursos políticos vazios que
adornam a realidade sem revelá-la.
Mas voltemos ao cerne do problema da disciplina. A pergunta
norteadora da aula foi: quem deu nome a todas as coisas? Eu brinquei dizendo
que foi Adão a mando de Deus.
A discussão entre Crátilo e Hermógenes começa com um atrito
fundamental. Para Crátilo, as coisas recebem o nome de acordo com suas formas
essenciais. Daí provém o substantivo como algo derivado da substância. Para
Hermógenes, porém, os nomes não possuem relação com as formas, sendo
estabelecidos apenas por convenções sociais. Platão, defensor e fundador da
teoria idealista, reconhece que existem coisas inferiores na dimensão sensível,
as quais convergem, em seu aspecto superior, para o inteligível. Para continuarmos
falando sobre a similaridade entre nomes e coisas, precisamos antes compreender
o que significa filosofar para Platão. A resposta é simples: filosofar consiste
na busca de um saber ordenado sobre algo. Falar, portanto, não é simplesmente
proferir palavras soltas, mas externar um discurso concatenado e ordenado que
faça sentido.
O texto que servirá de base para o segundo momento da aula é
extraído do livro Reviravolta Linguístico-Pragmática na Filosofia
Contemporânea, do professor Manfredo Araújo de Oliveira, da Universidade
Federal do Ceará. A pergunta que se impõe a partir dessa leitura consiste em
saber de onde provém a significação. Existe uma relação arbitrária entre objeto
e nome? Platão advoga o naturalismo ou o convencionalismo? Temos uma forma
natural para a linguagem? Uma coisa ficou clara na exposição: para Platão, a
linguagem exige um sistema e uma organização. Ela não é algo amorfo. Exige uma
correspondência fundamental entre a estrutura gramatical e a estrutura
ontológica. Em outras palavras, a linguagem não é uma construção inteiramente
arbitrária.
Como já era previsível, Platão considera a linguagem um
instrumento. Ela não é algo externo à razão. Para Platão, existem dois
processos distintos: primeiro nós pensamos e, em seguida, a linguagem realiza
suas operações de designação. O idealismo platônico considera, portanto, a
linguagem como um instrumento de promoção da verdade. O esquema é o seguinte: o
pensamento equivale ao conceito da coisa em si; existe uma representação que
equivale à correspondência, a qual se encaminha para um objeto no mundo. Desse
modo, Platão não é estritamente naturalista nem estritamente convencionalista.
É importante notar que Platão oscila entre essas duas
visões. Ele reconhece que há uma dimensão natural no nome, que deve refletir de
algum modo a realidade, mas também admite que a linguagem é construída por
convenção e pode ser imperfeita. Platão rejeita tanto o naturalismo puro, pois
não há evidência de que os sons das palavras possuam uma essência universal
correspondente às coisas, quanto o convencionalismo absoluto, que reduz a
linguagem a um mero acordo humano ignorando sua capacidade de revelar verdades
mais profundas. No entanto, é crucial observar que a posição defendida por
Sócrates no diálogo não é a de Crátilo. Este sustentava que quem conhece os
nomes conhece também as coisas. Sócrates refuta essa tese ao final do diálogo,
mostrando que se os nomes fossem a única via de acesso ao real estaríamos
condenados à imperfeição do legislador que os instituiu. Conhecer as coisas
exige, para Platão, voltar-se diretamente às Ideias, o que revela seu
antagonismo em dominar a nomenclatura que as designa.
A professora Edna pontuou mais uma vez que Platão realiza
uma apologia da teoria instrumentalista da linguagem. Existe uma separação
entre palavras e coisas. Platão define a linguagem como um funcionamento, como
um objeto que serve de caminho para o conhecimento. Contudo, sua estrutura
deixa em aberto uma questão crucial: até que ponto a linguagem pode realmente
alcançar a essência das coisas ou será ela sempre uma mediação imperfeita entre
o pensamento e a realidade?
No terceiro momento da aula, surgiu um questionamento sobre
a definição de crença. A professora estabeleceu então a distinção entre crença,
conhecimento e verdade. No âmbito da crença, existe a possibilidade de termos
uma crença falsa. No âmbito do conhecimento, exige-se uma crença verdadeira.
Unindo crença e verdade, temos o conhecimento entendido como crença verdadeira
justificada. Esse argumento atravessa a linguagem que para Platão, a opinião
verdadeira sem explicação racional não constitui conhecimento genuíno.
Veio à baila, então, René Descartes com sua hipótese
radical: e se a vida fosse um sonho? Enquanto dormimos, tudo o que acontece no
sonho nos parece real, por mais absurdo que seja. Ao acordarmos, percebemos a
equiparação entre crença e verdade: a crença deve corresponder a um fato, e
esse fato deve ser justificado. O conhecimento, portanto, trafega entre três
aspectos: verdade, juízo e crença.
Em conversas paralelas após a aula, utilizei o exemplo da
força gravitacional. No final do século XVI, Galileu Galilei sustentava a
convicção teórica de que a massa não afeta a aceleração da gravidade. Seu
raciocínio, amparado mais em experimentos mentais do que em comprovações
empíricas, sustentava que ao lançar corpos de pesos diferentes eles chegariam
ao solo simultaneamente, descontada a resistência do ar. A crença de Galileu
não podia ser empiricamente justificada com os recursos técnicos de sua época,
mas era sustentada por uma arquitetura racional e matemática. Essa crença foi
confirmada apenas séculos depois, quando o astronauta David Scott, na missão
Apollo 15, deixou cair simultaneamente um martelo de um quilo e uma pena de
trinta gramas na superfície lunar, onde a resistência do ar é nula. Ambos
tocaram o solo juntos. A crença que Galileu possuía tornou-se verdadeira e foi
finalmente justificada, correspondendo a um fato. Contudo, na época de Galileu,
tratava-se de uma crença verdadeira ainda carente de justificação empírica
plena, o que nos mostra como a tríade crença, verdade e justificação nem sempre
caminha junta na história do pensamento.
O professor Manfredo Araújo de Oliveira conclui o texto
dizendo que, assim como existe um carpinteiro para a construção de uma mesa,
existe para Platão um criador de palavras. Platão advoga a existência das
coisas em si. A linguagem é um instrumento, não o motor do conhecimento. Anos
depois, o pensador moderno Leibniz, em seu projeto racionalista de uma Characteristica
Universalis, daria continuidade a essa busca por uma linguagem que
espelhasse a estrutura do real. Leibniz propôs a criação de um alfabeto
universal de símbolos, um sistema que contemplasse o real independentemente de
suas contingências, uma linguagem universalizante capaz de eliminar as
ambiguidades e os equívocos da comunicação humana.
O que penso sobre Platão, Leibniz e todos os idealistas que
construíram conhecimento sobre bases que considero problemáticas ficará para as
próximas notas de aula.
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