quinta-feira, 2 de abril de 2026

O (pseudo) poderoso e seu ego frágil ou o bajulador contumaz

Por: Atualpa Ribeiro

É curioso como, quando nos afastamos de uma comunidade, conseguimos enxergar com mais nitidez certas peculiaridades que, no convívio diário, passam despercebidas. Nós mesmos já vivemos isso: ao entrar em um ambiente novo, percebemos gestos, olhares e posturas que revelam muito mais do que palavras. Foi assim que nos deparamos com a figura de um “pseudo-poderoso”, alguém que se sustenta na ilusão de ser admirado, mas cuja fragilidade se revela justamente na necessidade constante de bajulação. Ele evita elogiar os outros, como se qualquer reconhecimento fosse uma ameaça ao seu lugar, e diante de qualquer demonstração de inteligência ou espontaneidade, parece se sentir acuado. É quase automático: ao falar, busca os olhares daqueles que, em sua mente, poderiam um dia usurpar seu trono imaginário.

Se pensarmos com Freud, conseguimos compreender melhor esse comportamento. O id alimenta o desejo inconsciente de ser reconhecido; o ego, que deveria equilibrar realidade e desejo, mostra-se frágil, incapaz de lidar com críticas ou dividir espaço; e o superego, que deveria ser a instância moral, aparece distorcido, levando-o a acreditar que precisa reafirmar sua autoridade a todo instante, mesmo diminuindo os outros.

E não é raro vermos como esse tipo de personalidade se conecta à arte da bajulação. Plutarco, em Como Distinguir o Bajulador do Amigo, já alertava que o bajulador não busca a verdade, mas a conveniência. Ele alimenta o ego frágil do “pseudo-poderoso”, reforçando sua ilusão de grandeza, enquanto o verdadeiro amigo seria aquele capaz de oferecer críticas construtivas e reconhecimento sincero.

No nosso dia a dia, isso se traduz em situações bem concretas: aquele chefe que só se cerca de quem o elogia, aquele colega que nunca reconhece o esforço dos outros, ou até mesmo aquele líder comunitário que se sente ameaçado quando alguém propõe uma ideia diferente. Nessas horas, percebemos como a bajulação vira moeda de troca, perpetuando ilusões de poder e fragilizando relações autênticas. Isso mesmo moeda de troca, troca de emprego, cargos, nunca é sobre as potencialidades do agente público, mas sempre será sobre quanta baba estou disposto a produzir nos hemisférios baixos.

No fundo, o que vemos é um retrato humano: um ego que não se sustenta sozinho, precisando do aplauso constante para sobreviver. E nós, ao observarmos isso, entendemos como é importante distinguir quem nos bajula por oportunismo de quem nos acompanha por amizade verdadeira.



P.S. O trecho abaixo retirei desse site - Como Distinguir o Bajulador do Amigo - Plutarco | Livro Resumido

"Os diferentes tipos de bajuladores

Plutarco identifica três tipos principais de bajuladores:

  • Os bajuladores óbvios: Esses são os bajuladores que são fáceis de detectar. Eles estão sempre elogiando você, concordando com tudo o que você diz e tentando fazer você se sentir bem.
  • Os bajuladores sutis: Esses são os bajuladores que são mais difíceis de detectar. Eles podem ser muito charmosos e inteligentes, e podem parecer genuinamente interessados em você. No entanto, eles estão sempre tentando sutilmente influenciar você ou obter algo de você, ou até mesmo fazer você derrapar.
  • Os bajuladores inconscientes: Esses são os bajuladores que não estão cientes de que estão bajulando. Eles podem ser pessoas muito gentis e atenciosas, mas podem ser facilmente influenciadas por outras pessoas.

Estratégias de Plutarco para identificar o bajulador

Plutarco alerta que a bajulação é perigosa porque se disfarça de amizade, explorando nosso amor-próprio. Ele oferece uma série de critérios para distinguir o bajulador do amigo:

  • O bajulador sempre concorda: ele evita contradições, mesmo quando percebe erros. O amigo, ao contrário, corrige com franqueza, pois se preocupa com nosso crescimento.

  • O bajulador exagera elogios: usa palavras doces e constantes para inflar o ego, enquanto o amigo reconhece méritos com equilíbrio e sinceridade.

  • O bajulador busca conveniência: aproxima-se quando há benefícios, mas se afasta em momentos difíceis. O amigo permanece presente, mesmo quando não há vantagem.

  • O bajulador alimenta ilusões: reforça crenças equivocadas para manter a dependência emocional, enquanto o amigo nos ajuda a enxergar a realidade.

  • O bajulador teme a verdade: evita críticas para não perder espaço, enquanto o amigo não hesita em apontar falhas, pois valoriza a integridade da relação."

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