segunda-feira, 30 de março de 2026

Aquilo que chamavam de brincadeira

Ele não soube exatamente quando começou.

Talvez no primeiro dia. Talvez antes, naquele instante em que entrou pela porta de um novo ambiente de trabalho acreditando que ali encontraria apenas rotina, responsabilidades e, quem sabe, algum reconhecimento.

Chamemos ele de André.

André era desses homens que carregam uma postura tranquila, respeitosa, alegre, uma pessoa muito comunicativa. Tinha passado por várias cidades, diferentes instituições, sempre com o mesmo cuidado: tratar todos com dignidade. Nunca imaginou que, justamente ali, onde se fala tanto em educação e convivência, enfrentaria algo que não sabia nomear no início.

Chamemos ela de Helena.

Helena era expansiva, falava alto, ria com facilidade. No começo, André pensou que era apenas o jeito dela. Mas, com o tempo, as falas começaram a atravessar limites invisíveis.

“André, deixa eu te chupar?”

Ele riu sem graça. Achou que fosse uma piada infeliz.

Mas vieram outras.

“Meu marido me traiu, mas não é por isso que desejo te comer não, sinto desejo e não sei explicar.”
“Fica aqui no almoço, vai dar certo lá no miniauditório.”
“Me dá um beijo de língua de seis minutos.”
“Sonhei contigo… foi um sonho muito erótico.”
“Você tem um cheiro de macho que o colega do lado não tem… esse cheiro me excita.”

As palavras começaram a pesar.

O que antes parecia deslocado, agora se repetia. E não era só fala.

Houve o toque que não foi autorizado.
O pé que insistia em ultrapassar limites no banco de trás do carro.
O riso ao redor, cúmplice ou distraído, que transformava tudo em “brincadeira”.

E talvez esse tenha sido o ponto mais duro.

Ninguém dizia: isso está errado.
Diziam: “é só o jeito dela”.
Ou simplesmente… não diziam nada.

André começou a se calar.

Não porque não sentia. Mas porque não sabia como nomear aquilo sem parecer exagero. Afinal, homem não sofre esse tipo de coisa, ou pelo menos foi isso que aprendeu, silenciosamente, ao longo da vida.

Mas sofria.

Voltava para casa carregando algo que não sabia explicar. O silêncio começou a atravessar o jantar. O olhar distante começou a incomodar quem estava ao lado.

Aquilo que acontecia no trabalho não ficava no trabalho.

Foi um ano inteiro assim.

Um ano de frases atravessadas, de risos deslocados, de limites ignorados. Um ano tentando fingir normalidade diante de alguém que agia como se nada estivesse acontecendo.

E talvez fosse isso o mais perturbador: a naturalidade com que o absurdo se instala.

Até que um dia André entendeu.

Não era brincadeira.
Não era exagero.
Não era “coisa da cabeça dele”.

Era violência.

Uma violência que não deixa marca visível, mas corrói por dentro. Que não grita, mas insiste. Que não aparece em fotos, mas aparece no cansaço, na irritação, no afastamento.

E então ele fez o que muitos demoram a fazer:

Ele decidiu falar.

Não para expor.
Mas para não carregar sozinho.
Não para destruir alguém.
Mas para reconstruir a si mesmo.

Porque existem coisas que só continuam existindo enquanto permanecem sem nome.

E dar nome às coisas…
é o primeiro passo para que elas deixem de acontecer.


🤔🤔Reflexão final

Quantas situações ainda são tratadas como “brincadeira”, mas, no fundo, são formas de desrespeito?

Quantas pessoas silenciam por medo, vergonha ou por não saberem se serão levadas a sério?

Ambientes saudáveis não se constroem apenas com discursos, mas com limites claros, respeito mútuo e coragem para interromper o que fere.

Porque respeito não é opcional.
E silêncio nunca foi solução.




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