sábado, 3 de janeiro de 2026

Emanuel e a Raiva


Emanuel não sabe exatamente de onde vem.
Talvez um analista soubesse nomear,
talvez a infância, o corpo cansado ou o silêncio acumulado explicassem.
Ele só sabe que, às vezes, a raiva chega sem pedir licença.
Chega quente.
Chega mortal — não no gesto, mas na intenção que assusta até quem a sente.


Não é ódio dirigido, é um incêndio interno.
Uma vontade de esmagar o mundo para que o mundo pare de apertá-lo.
Emanuel percebe: não quer ferir ninguém,
mas a raiva respinga,
e quem está por perto sente o calor das chamas.


Ele odeia esse sentimento.
Odeia porque reconhece: ele também é isso.
Carrega um corpo parado demais,
um coração que precisa correr,
um pensamento que precisa suar para não explodir.

A raiva o consome por dentro,
como se fosse fome mal compreendida.
Emanuel aprende — do jeito mais difícil —
que negar não cura.
Identificar é o primeiro gesto de cuidado.

E ele já deu esse passo.
Olhou para dentro e disse: eu vejo você.
Agora vem o mais difícil:
criar estratégias para não transformar dor em ataque,
cansaço em palavra dura,
vazio em ferida alheia.

Emanuel não busca perfeição.
Busca freio.
Busca movimento.
Busca aprender a sair de si antes que a raiva saia por ele.

Talvez correr.
Talvez respirar.
Talvez silêncio.
Talvez ajuda.

Ele segue —
não como quem venceu a raiva,
mas como quem decidiu não deixá-la dirigir.

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