terça-feira, 25 de novembro de 2025

Efeito Rorty

Por Atualpa Ribeiro

Sinto como se estivesse vivendo um “efeito Rorty” no cotidiano. Tudo aquilo que me aparece sob lentes rortyanas - ou seja, pretensamente universal, transcendental, fora da cultura e da política - provoca em mim um certo incômodo imediato. É como se qualquer discurso que se apresente como absoluto despertasse suspeita, e eu, quase instintivamente, passasse a me afastar. Tenho me encontrado torcendo o nariz para temas que antes eu encarava como fundamentais, justamente porque agora os vejo revestidos dessa aura de neutralidade que Rorty tanto questiona.

Em discussões acadêmicas, por exemplo, quando surgem conceitos como experiência e vivência em Benjamin, a primeira reação que me vem não é curiosidade, mas uma interrogação quase impaciente: " que assunto chato", "que verborragia", “qual o sentido disso?” Não porque os temas sejam irrelevantes, mas porque, diante da perspectiva pragmatista que me atravessou, eles parecem, à primeira vista, distantes demais da vida concreta, como se pairassem acima dos conflitos históricos, sociais e materiais que de fato nos afetam. Talvez eu não esteja rejeitando Benjamin, e sim essa tendência de transformar conceitos em abstrações desligadas de suas condições de produção. O efeito não é o abandono do pensamento, mas uma exigência: que ele não se esconda atrás de verdades intocáveis, que se responsabilize pelo mundo que pretende interpretar.

Richard Rorty 
Nascimento: 4 de outubro de 1931, Nova Iorque, Nova York, EUA
Falecimento: 8 de junho de 2007, Palo Alto, Califórnia, EUA




quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Cartilha sobre as Comissões de Proteção e Prevenção à Violência contra Crianças e Adolescentes (Lei nº 17.253/2020) - CPPE_CRPPDT_CREDE13


Foram definidas as diretrizes para a implantação das Comissões de Proteção e Prevenção à Violência contra Crianças e Adolescentes nas escolas públicas e privadas do Ceará. A medida resulta da Lei 17.253/2020, de autoria do deputado Renato Roseno (Psol), regulamentada pela Portaria 0590 da SEDUC e publicada no DOE em 21 de dezembro de 2020.

As comissões deverão, junto à comunidade escolar, elaborar planos de prevenção às diversas formas de violência, promover formações e ações de sensibilização, além de estreitar a relação com o Conselho Tutelar para notificação de casos suspeitos ou confirmados, garantindo a não revitimização das vítimas. Todos os registros serão feitos no Sistema Integrado de Gestão Escolar (SIGE), com documentos mantidos sob sigilo.

Os planos devem seguir legislações estaduais voltadas à promoção da cultura de paz, prevenção ao suicídio, respeito à diversidade, combate ao trabalho infantil, entre outras. As definições de violência têm como referência a Lei 13.431/2017, a Lei 13.819/2019 e a Lei Maria da Penha (11.340/2006).

A lei atualiza e aprimora a de nº 13.230/2002, criada pelo ex-deputado João Alfredo, ampliando a proteção no ambiente escolar. Para Roseno, a prevenção é essencial: “Quando a violência ocorre, todo o sistema de garantia de direitos já falhou. Institucionalizar essa atenção é uma vitória para a proteção de crianças e adolescentes”.

Acesse clicando bem aí: Cartilha sobre as Comissões de Proteção e Prevenção à Violência contra Crianças e Adolescentes  (Lei nº 17.253/2020) - CPPE_CRPPDT_CREDE13



quinta-feira, 17 de julho de 2025

Meu amor,



Hoje eu quero te escrever não para lembrar o que você já faz todos os dias com tanto amor e entrega, mas para que você saiba que eu vejo. Eu vejo sua dedicação incansável na maternidade, sua paciência quando tudo parece querer desmoronar, sua força quando o mundo parece pesar. Você se doa inteira. E isso é belo. É divino.

Sei que nem sempre pareço estar ao seu lado como deveria. Às vezes, com brincadeiras ou silêncios, acabo insinuando que não ligo tanto quanto deveria — e isso dói em mim mais do que você imagina. Mas a verdade é que, quando ajo assim, não é indiferença… é fraqueza. É medo. É minha forma imperfeita de lidar com o que não dou conta.

Enquanto eu tropeço em dúvidas e me distraio nas rotinas, você permanece firme, com um brilho que só posso explicar como dom de Deus. Você é iluminada pelo Espírito Santo — isso é visível na sua calma, na sua sensibilidade, na sua entrega. E, mesmo quando você se cansa (porque sei que se cansa), continua sendo refúgio, estrutura e esperança para nossa família.

Hoje quero te agradecer. Não por ser perfeita — porque não te amo por isso —, mas por ser essa mulher real, cheia de coragem e fé, que inspira e segura tudo com graça. Você me ensina, mesmo sem palavras, o que é amar de verdade.

Perdão pelas vezes em que falhei como pai e parceiro. Prometo seguir aprendendo com você, caminhando ao seu lado com mais presença, mais verdade e mais amor.

Te amo com tudo o que sou.



quinta-feira, 3 de julho de 2025

O Efeito das Pessoas Abrasivas

Por: Atualpa Ribeiro

Não sei exatamente o que acontece. Ainda vou conversar sobre isso com o Luiz, talvez ele me ajude a entender. Mas diante de certas pessoas — como essa garota que trabalha comigo — algo em mim se retrai. São pessoas que se posicionam com firmeza, que falam alto sem necessariamente levantar a voz, que caminham entre os outros como se o mundo lhes devesse alguma explicação.

Não as chamaria de arrogantes, mas há nelas um tom... abrasivo. Um jeito de existir que fere de leve, como lixa fina passando na pele. E o que faço eu, com meu temperamento enérgico, minha vontade de me impor? Me encolho. Me afasto. Evito o confronto como quem evita uma febre anunciada. Não por covardia, acho — embora às vezes me questione —, mas por receio de tropeçar nas palavras, de me perder no calor do embate, de parecer frágil exatamente onde gostaria de ser firme.

By: Devaneios com Sigmund e Freud

Freud talvez explicasse. Lembro de um texto dele, "O Estranho". Nele, fala sobre o desconforto que sentimos diante do familiar disfarçado. Talvez seja isso. Essas pessoas me soam excêntricas, sim, mas não totalmente estranhas. Há nelas algo que reconheço, uma coisa que talvez eu queira — não ser, mas ao menos possuir. Como a calma para argumentar, por exemplo. A precisão. A frieza útil.

Talvez eu admire nelas o que me falta, e é esse espelho torto que me desconcerta. Quem sabe o que me incomoda não seja o outro, mas o que o outro me mostra de mim mesmo.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Entenda a depressão ou pereça

Por: Atualpa Ribeiro

Nos últimos dias, tenho comentado com colegas de trabalho, com minha esposa e até com minha terapeuta sobre o livro que estou lendo: "Uma Biografia da Depressão", de Christian Dunker. A leitura tem me feito refletir profundamente sobre como essa doença, mais do que uma condição clínica, parece atravessar séculos como uma expressão do sofrimento humano, uma espécie de "doença da alma".

Segundo o autor, em todas as épocas surgiram fenômenos sociais, culturais e espirituais que, de alguma forma, alimentaram o que hoje chamamos de depressão. Na Antiguidade, ela era conhecida como bílis negra — uma das quatro substâncias que, segundo a teoria dos humores, regulavam o corpo e o espírito. Ao longo do tempo, essa "melancolia" foi ganhando novas roupagens: na Idade Média, esteve ligada ao pecado e ao medo do inferno; no Renascimento, apareceu nas obras dos artistas e poetas como um traço do gênio criativo; e, a partir da modernidade, passou a ser vista como um problema psicológico ou psiquiátrico.

Durante os séculos XVIII e XIX, a depressão passou a ser institucionalizada dentro da medicina e da psiquiatria. Porém, ao invés de ser compreendida em sua complexidade, ela muitas vezes foi isolada em diagnósticos e tratada de forma fragmentada. No século XX, com o avanço da indústria farmacêutica, surgiu a crença de que pílulas seriam capazes de curar ou ao menos estabilizar o humor humano — uma promessa que, infelizmente, ignora as dimensões sociais e existenciais do sofrimento.

Dunker mostra como diversos acontecimentos históricos contribuíram para esse cenário: a opressão religiosa que impunha a busca por um céu quase inalcançável, a caça às bruxas, a transição do ser para o fazer — do valor intrínseco do ser humano para sua produtividade —, a ascensão do liberalismo econômico, a promessa de um progresso que nunca chegou para muitos, entre tantos outros fatores. Tudo isso alimentou um vazio interior, uma desconexão com o sentido da vida.

O autor compara a depressão a um deserto que, pouco a pouco, invade o espírito humano. Ela não chega de forma abrupta. Muitas vezes começa com um desânimo sutil, uma perda de interesse por atividades antes prazerosas, uma tristeza que se instala sem grandes explicações. É como se a vida fosse, lentamente, perdendo o sabor.

Na contemporaneidade, vivemos sob a lógica do desempenho, da produtividade e da exposição constante. Trabalhamos cada vez mais, acumulamos funções, projetos, metas e... postagens. Somos constantemente medidos por currículos, números, visualizações e likes. E, nesse ritmo, trocamos a experiência genuína da vida por uma performance incessante. Essa recusa, muitas vezes involuntária, de viver plenamente é um dos gatilhos mais sutis — e perigosos — da depressão moderna.

Por fim, a leitura do livro tem me feito entender que a depressão não é apenas uma questão individual, mas uma condição profundamente ligada à história da humanidade. E talvez, mais do que curá-la, seja preciso escutá-la. A depressão, como nos mostra Dunker, pode ser uma forma de resistência silenciosa a uma sociedade que nos exige demais e oferece pouco em troca. 

Deprimir é inescapável, mas podemos entender, tratar e aprender a driblar esse "demônio". 

Fair play institucional e a Construção da Cidadania na Convivência Democrática

Fui convidado para conversar no CREACE sobre Fair play institucional e a Construção da Cidadania na Convivência Democrática. É com grande sa...